Opinião

É possível ainda brincar diante do iminente colapso da humanidade?

A seriedade excessiva, muitas vezes confundida com a maturidade, pode ser uma renúncia à própria vitalidade, à abertura ao outro, à potência do instante não vivido

Francisco Estefogo
16/05/25 às 19h00

Na contramão dos julgamentos e de falas opressoras, como era há tempos muito comum na seara religiosa, dentre as inúmeras manifestações de acolhimento e valorização da vida do já saudoso Papa Francisco (1936-2025), talvez “quando alguém deixa de brincar e se torna muito sério perde o sentido da vida” possa ser uma das mais icônicas e relevantes afirmações diante da sisudez da contemporaneidade. As hodiernas guerras, as crises e os colapsos ambientais, a abissal desigualdade  social e econômica, bem como os extremismos e a intolerância, além da desumanização pela tecnologia, sobretudo, atinente ao isolamento no cansativo, repetitivo e superficial mundinho virtual, para citar apenas algumas das ameaçadoras apocalípticas mazelas, fazem coro à carrancuda estética da modernidade. Consequentemente, parece comum que nós nos conformemos com a brutalidade e a aspereza como se fossem elementos naturais no nosso cotidiano, ao endurecer os afetos, domesticar os desejos e a homogeneizar a espontaneidade humana, num processo que, para além da perda da sensibilidade, igualmente revela os sintomas precoces do iminente colapso da humanidade.

O semblante turvo do dia a dia e o horizonte desperançoso que se desenha podem nos privar de imaginar o novo, por estarmos normalmente anestesiados por estruturas de poder que nos ensinam a temer a liberdade, a genuinidade, a diversão e o afeto. Além de um ato político e um levante contra a lógica acorrentada de ser, pensar e viver e da obediência cega apregoada pelo fanatismo, as brincadeiras, nesse contexto, emergem como linguagens subversivas, que interrompem a rigidez colonizadora do nosso existir moderno. A seriedade excessiva, muitas vezes confundida com a maturidade, pode ser uma renúncia à própria vitalidade, à abertura ao outro, à potência do instante não vivido. Para além de uma mera metáfora, o brincar retratado aqui se configura como primordial experiência onto e epistemológica, de modo a dar um sentido à vida no que se refere à criação, à coletividade e à liberdade.

Além de ser essencial, brincar também está politicamente situado. A filósofa americana Angela Davis reconhece, por exemplo,  o poder do riso e da recreação como formas de resistência nas comunidades negras. Em contextos de opressão, o aspecto recreativo não é uma reles fuga, mas afirmação. Como similarmente aponta bell hooks (1952-2021), ativista antirracista estadunidense, o brincar é uma “estética da existência” que rompe com a seriedade disciplinadora do poder colonial. No mais, Frantz Fanon (1925-1961), filósofo político natural das Antilhas francesas, em Os Condenados da Terra, alerta que o colonizado é despojado de sua autenticidade e, por conseguinte, da interação brincante. O corpo colonizado é forçado à seriedade do medo, da obediência e da performance subalterna. Recuperar o brincar, nesses contextos, é um gesto revolucionário, pois devolve ao corpo sua expressividade, seu tempo próprio, sua dignidade, sua livre forma de ser e viver. Nesse sentido, o supracitado enunciado do Sumo Pontífice se transforma em denúncia: os que perdem o brincar, muitas vezes, não o fazem por escolha, mas por imposição. E os que nunca puderam brincar plenamente carregam cicatrizes civilizatórias.

Nesse esteio, para Paulo Freire (1921-1997), educador e filósofo brasileiro, o aprendizado ocorre por meio da experiência viva, dialógica, alegre e amorosa. Dessa forma, entende-se que o brincar pode ser um ato político e pedagógico, pois abre espaço para a curiosidade, a dúvida, o erro, a decepção, a conquista e a criação coletiva. A rigidez do “ensinar certo”  dizima o encanto do saber. A criança que brinca com o mundo, e não apenas o recebe, é a mesma que se tornará sujeito de sua história. Nessa toada, Lev Vygotsky (1896-1934), psicólogo russo, por sua vez, assevera que o contexto de brincadeira é o lugar onde a criança experimenta o futuro. No ato de brincar, ela simula, antecipa, experimenta, frustra-se, regozija-se, ou seja, reconstrói realidades. “Na brincadeira, a criança é sempre maior do que ela é na vida real” , aponta Vygotsky. Destarte, o brincar é a expansão da consciência, a articulação da linguagem com o afeto, assim como  a germinação de autonomia e o pavimento do vir-a-ser.

Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão, talvez seja o mais iconoclasta dos defensores da possibilidade de se expressar livremente. No antidogmático livro Assim Falava Zaratustra, o pensador do indefectível bigode anuncia: “Não é suficiente ter o espírito livre; é preciso ainda ser capaz de dançar” . Ao refletir a partir dessa máxima nietzschiana, apreende-se que o brincar é o movimento da vida que afirma o caos, a diferença, a eternidade do retorno. O sujeito não brincante, que se torna “muito sério” e, logo, está doente, é o ser do ressentimento, do peso, da culpa. Brincar, portanto, é uma leveza trágica: não alienação, mas potência. Assentado no fato de que o dançarino se desloca com agilidade em busca de espaços onde possa criar e expandir sua própria existência, o intelectual alemão possivelmente diria que a experiência estética do brincar é um manancial de novos valores. A criança, em sua liberdade lúdica, é para ele símbolo do ubermensch, ou seja, o além-do-homem ou o super-homem. “Inocência é a criança, e esquecimento; um novo recomeço, um jogo, uma roda a girar por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer-sim” , continua Nietzsche ao se referir à dimensão lúdica intrínseca da criança que transfigura a realidade em um campo de jogo ontológico, onde a oposição entre conservação e aniquilação se esvazia de sentido. Com o esgotamento dos valores pretéritos, a criança emerge como potência liberta, destinada à criação incessante no limiar do devir. Em um mundo marcado pela irresoluta produtividade, constante vigilância e racionalidade instrumental, bem como imposições de modo de ser, pensar e viver, a ludicidade, portanto, é insurgente. O voraz capitalismo, como lembra Achille Mbembe,  filósofo e professor universitário camaronês, transforma o tempo em mercadoria e, por conseguinte, a infância em déficit. Brincar é, nesse contexto, um gesto de desaceleração, de reaprendizagem da escuta, da presença e da apresentação do que temos de mais íntimo, concernente à nossa essência como seres humanos.

O inspirador e progressista líder do Vaticano, com sua simplicidade espiritual e acolhedora, convoca-nos a não nos esquecermos da infância do mundo. Relegar  o brincar é mais que uma falha individual: é um sintoma de um mundo enfermo que perdeu o encantamento e, infelizmente, substituiu a relação pelo controle, a poesia pela função, o abraço pelos “cliques”, a troca de olhares pela tela, tal e qual o afeto pela eficiência e produção. No mais, brincar não é apenas coisa de criança, mas de gente viva. De quem ainda tem coragem de rir diante da morte, de dançar diante da opressão, de imaginar um mundo onde o tempo não seja prisão, mas uma oportunidade de elaborar o inédito com o outro. O brincar é um modo radical de afirmar a vida, em sua inteireza, complexidade, expansividade, beleza e incerteza. Em que pese o iminente colapso da humanidade, promover situações para brincar é resgatar, como humildemente profetizava Jorge Bertoglio, o “sentido - e talvez a salvação - da vida”   tão vilipendiada, insossa e lúgubre nos últimos tempos.

* * Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

Francisco Estefogo
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