Opinião

Edição Genética começará a ser aplicada em humanos

"Ela funciona como uma espécie de 'tesoura' que corta e substitui trechos específicos do nosso código genético"

Cássio Betine
26/11/23 às 09h18
Imagem de Peace, love, happiness (Pixabay)

A edição genética é uma técnica que permite modificar o DNA de qualquer ser vivo e pode alterar o metabolismo, corrigir doenças, melhorar características ou até criar novas funções biológicas. Ela funciona como uma espécie de "tesoura" que corta e substitui trechos específicos do nosso código genético (aquele que determina nossas características individuais), como se fosse um editor de vídeo, incluindo, alterando ou excluindo trechos da gravação.

Essa técnica tem diversas potenciais aplicações, tanto na medicina quanto na agricultura, na indústria e na pesquisa científica. Por exemplo, a edição genética pode ser usada para criar organismos-modelo para estudar doenças, desenvolver alimentos transgênicos mais nutritivos ou resistentes a pragas, produzir substâncias de interesse farmacêutico ou biotecnológico, entre outras possibilidades. Esse processo já é muito utilizado nas plantas e alimentos.

No campo da saúde humana, a edição genética pode oferecer novas terapias para doenças causadas por mutações genéticas, como anemia falciforme, talassemia beta, hemofilia, fibrose cística e algumas formas de câncer. Essas terapias consistem em alterar o DNA das células do paciente, seja in vitro (fora do corpo) ou in vivo (dentro do corpo), para corrigir o defeito genético e restaurar a função normal.

Algumas dessas terapias já foram aprovadas ou estão em fase de testes clínicos em diversos países. Por exemplo, recentemente, o Reino Unido autorizou o uso da técnica CRISPR, uma das mais avançadas e precisas formas de edição genética, para tratar pacientes com anemia falciforme e talassemia beta (um tipo de problema no sangue). Essas doenças afetam a produção de hemoglobina, a proteína que transporta oxigênio no sangue.

A terapia entra nesse contexto, retirando células-tronco da medula óssea do paciente, editando o gene responsável pela hemoglobina fetal (que é mais eficiente que a hemoglobina adulta) e é “recolocado” de volta nas células do paciente por meio de um pílulas ou injeção. Dessa forma, espera-se que as células editadas produzam hemoglobina suficiente para compensar a deficiência da hemoglobina adulta, curando assim o paciente.

Outro exemplo de terapia de edição genética que mostrou resultados promissores foi um estudo que envolveu 10 pacientes com hipercolesterolemia familiar (alto colesterol hereditário), uma condição que eleva os níveis de colesterol ruim (LDL) no sangue e aumenta o risco de doenças cardíacas. O estudo usou a técnica CRISPR para inativar um determinado gene que regula o metabolismo do colesterol.

Os pacientes receberam uma injeção intravenosa contendo um vírus modificado que carregava a enzima CRISPR para as células do fígado. Após seis meses, os pacientes apresentaram uma redução permanente de 50% nos níveis de LDL no sangue. Ou seja, o negócio funcionou.

Esses exemplos ilustram o potencial da edição genética para tratar doenças que atualmente não têm cura ou dependem de medicamentos caros ou com efeitos colaterais. No entanto, essa técnica também apresenta riscos e desafios éticos, sociais e regulatórios, como é de se imaginar.

Entre os riscos estão os possíveis erros ou efeitos indesejados da edição genética, como cortes ou inserções em locais errados do DNA, alterações não intencionais no genoma, reações imunológicas adversas ou transmissão das alterações genéticas para as gerações futuras (no caso da edição de células germinativas ou embrionárias). 

Esses riscos além de poderem causar danos à saúde ou até mesmo ao meio ambiente (pois podem ser aplicados em qualquer tipo de ser vivo), também levantam questões sobre a segurança, a eficácia e a qualidade dos produtos ou serviços derivados da edição genética - mas na verdade tudo o que é feito, tem seus pontos positivos e negativos, não é mesmo?

Agora, que isso é um negócio, digamos, mais profundo, sim, é, pois entra em dilemas sobre os limites e as finalidades da intervenção humana na natureza, especialmente no que diz respeito à dignidade, à identidade e à diversidade dos seres humanos. Por exemplo, a edição genética poderia ser usada para fins não terapêuticos, como melhorar características estéticas, cognitivas ou físicas, ou para selecionar traços desejáveis ou indesejáveis em embriões humanos. Essas possibilidades são reais e poderiam gerar uma série de debates filosóficos. Mas a questão é que elas estão aqui e sendo utilizadas.

Foto: Reprodução

 

*Cassio Betine é head do ecossistema regional de startups, coordenador de meetups tecnológicos regionais, coordenador e mentor de Startup Weekend e pilot do Walking Together. Cássio é autor do podcast Drops Tecnológicos

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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