Opinião

Emily em Paris: merecemos ver séries “bobinhas” sem que nos julguem

Série é uma criação do produtor Darren Star, o mesmo de títulos famosos, como Beverly Hills e Sex and the City

Manu Zambon* - Hojemais Araçatuba
07/10/20 às 11h30
Um ponto alto da série são as paisagens parisienses (Foto: Stephanie Branchu/Netflix)

Paisagens deslumbrantes, humor, figurinos descolados – que rendem opiniões variadas -, redes sociais e atores que parecem ter saído de um comercial de perfume importado. Junte todos os elementos, mais a doçura da atriz Lilly Colins e o produtor Darren Star, o mesmo de séries famosas, como Beverly Hills e Sex and the City , e teremos Emily em Paris .

(Para não dizer que não avisei, cuidado com os spoilers)

Produzida pela plataforma de streaming e lançada no dia 2 de outubro, a série já rendeu muitos fãs felizes; desde sua estreia, não saiu da lista de top 10. Além do grupo satisfeito com a produção, estão as pessoas que não curtiram; alguns motivos até cito no texto. Mas acho que nenhum grupo ficou tão ofendido quanto os franceses, já que a série destaca a fama de terem um comportamento grosseiro com estrangeiros.

É claro que me rendi à série, por indicação de uma amiga, que assim como eu, também tinha gostado de Valéria ( série espanhola que já ganhou um artigo aqui ). Assisti neste final de semana, em uma só tacada – alô, distanciamento social – e nem achei que renderia muitos comentários na rede. Me enganei e aqui estou para escrever sobre. 

A americana Emily personifica o sonho de muitas pessoas que trabalham com internet. Assim que se muda para Paris, a trabalho, suas redes sociais começam a ganhar seguidores de forma desproporcional. Isso foi um dos pontos criticados por alguns textos que li sobre o assunto, dizendo que isso banaliza o trabalho de profissionais de marketing digital ou romantiza as atividades de influencieadores digitais. 

Oras, todo mundo sabe que filmes, séries e livros de ficção têm liberdade poética para fantasias. E por falar nisso, outra coisa que não acontece no dia a dia: as ideias dela para os clientes da agência em que trabalha, sempre são aceitas por eles - mesmo com a resistência de sua chefe Sylvie. Além de aceitas, dão muito certo.

Não é preciso ser um grande crítico para saber que essa situação em nossos trabalhos também não acontece - mas gostaríamos que acontecesse -, não é mesmo?

E a chuva de homens elegantes, com conteúdo e charmosos que aparecem a cada episódio, inclusive flertando e conquistando a personagem? Um capítulo à parte. 

Aqui, abro um parêntese para comentar o que li por aí a respeito do comportamento da chefe Sylvie com a Emily, dizendo que isso poderia reforçar o estigma da rivalidade entre mulheres. Sinceramente, não vi dessa forma, até porque, se colocassem um homem como chefe dela, as críticas recairiam sobre esse fato; homens são chefes, mulheres são subalternas. Então, me apeguei ao fato de ser uma mulher no cargo de chefia e ponto.

Além dessa situação conturbada entre Sylvie e Emily, também temos um delicado “triângulo amoroso” entre ela, Gabriel e Camille, que acaba se tornando sua amiga. Prefiro não entrar nesse debate, porque rende um tanto de interpretações o fato de Emily ter se tornado amiga da namorada do cara que ela gosta.  

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Preferi olhar para a personalidade que a série enaltece em Emily: uma mulher independente e inteligente, sagaz e bem-humorada, que aceita desafios e não se intimida quando percebe um  discurso com potencial machista ou um cliente casado dando em cima dela. Mas tudo de forma leve e doce. Quem assistiu, gostou da intervenção dela no comercial do perfume?  

Mas se a série é tão fantasiosa e sem um drama central forte, por que esse sucesso todo? Minha resposta não poderia ser diferente. Emily é um conto de fadas moderno, que traz aquilo que muitos desejam: o sucesso na internet como digital influencer, um lugar maravilhoso para morar, um trabalho que goste e que se destaque e um amor.

Se todos esses conteúdos são bons ou ruins, vai depender de como você consome essa série e de outras que vão no mesmo embalo. Falo por mim; assisti ciente da fantasia, porque queria algo realmente para alienar, simplesmente para me entreter. Nem tudo o que assistimos tem que ser superinteligente, com atores premiados ou que levante problemas sociais que devem ser debatidos.

Tem hora que tudo o que a gente quer é assistir uma série fantasiosa, sim, sem julgamentos nossos e dos outros. Ninguém tem moral para isso, não. Portanto, pessoas que gostam de séries “bobinhas”, uni-vos.

*Manu Zambon é jornalista do Hojemais Araçatuba, cobre a área cultural em Araçatuba e região e admite que gosta de série "bobinha".

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