Opinião

Feio é o que não é espelho

"A sociedade contemporânea, incapaz de solucionar, no campo da política e da cultura, os conflitos e contradições de um mundo cada vez mais desigual e injusto, criou mecanismos de escapes materializados no consumo (celebrizados pelos shopping centers) e na vida digital (internet)"

Rubens Arantes Correa* - Hojemais Araçatuba
18/03/20 às 19h40

Narciso era filho de Liríope, uma ninfa, e de Cefiso, um deus. Nascido na Boécia, região central da Grécia antiga, planície fértil de produção de vinhas e berço de escola de poetas como Hesíodo, autor de Teogonia e Os Trabalhos e os Dias.

Cumpriu o destino de beleza inconfundível, prenunciado por um dos deuses dos oráculos que, no entanto, o alertou para não fitar seu rosto, pois que, uma maldição cairia sobre si.

Sua beleza estonteante chamou atenção de Eco, diva belíssima que, por não ter sido correspondida em seu amor e paixão, desferiu um terrível feitiço sobre Narciso que, ao se deparar com sua imagem refletida pelas águas límpidas do riacho, afogou-se, vindo a se transformar em uma flor.

Da mitologia grega, o mito de Narciso, como símbolo do entorpecimento e da vaidade, foi retomado em diversas situações da modernidade.  Na pintura renascentista por Caravaggio que concebeu, entre 1597-1599, um “Narciso” refletido pela técnica do claro-escuro.  Na literatura, com o poeta inglês John Keatsk, que em poema de 1816, celebra o encontro de Narciso com o destino que o imortalizou: “E na margem uma flor solitária que ele espiou/ Uma flor mansa e abandonada, sem nada de orgulho/Inclinando sua beleza sobre a claridade aquosa/Para atrair sua própria imagem triste para a proximidade”.

Mas foi com uma ciência nascida no final do século 19 que o mito de Narciso ganhou contornos que conhecemos. Freud, o pai da psicanálise, recorreu ao mito grego para explicar, dentre outros efeitos, um dos principais mal-estares da modernidade; o narcisismo, uma espécie de individualismo que procura se afirmar a partir dos desejos individuais e da imposição do eu.

Decorridos mais de um século dos primeiros diagnósticos freudianos, eis que o advento da modernidade tardia (alta modernidade? pós-modernidade?) eleva o desencanto daquilo que para época de Freud era apenas um prenúncio.  A sociedade contemporânea, incapaz de solucionar, no campo da política e da cultura, os conflitos e contradições de um mundo cada vez mais desigual e injusto, criou mecanismos de escapes materializados no consumo (celebrizados pelos shopping centers) e na vida digital (internet).

As novas tecnologias fundamentadas nos processos virtuais de relações sociais mediados por tablets, celulares e computadores reatualizou o mito de Narciso. Exercitamos nossos entorpecimentos e vaidades não mais diante das águas límpidas de um riacho, mas diante da tela de um meio tecnológico qualquer. 

Em uma busca obsessiva por aprovação e aceitamento, frequentamos redes sociais, fazemos selfies, postamos vídeos, queremos receber likes e reconhecimento.  Pouco importa quem é o “outro”, ou seja, o destinatário de toda essa frequência.  O “outro” desapareceu, ou melhor, vive apenas virtualmente.  Afinal, “feio é o que não é espelho”. 

*Rubens Arantes Correa é historiador, doutor pela Unesp e professor do IFSP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo), campus Birigui.

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