Opinião

História, memória e preservação

"É bem verdade que a urbanização abre portas para a expansão do comércio e a remodelação do espaço, o que é louvável, mas para isso não podemos cometer o pecado de destruir um patrimônio".

Aurélio Luiz de Oliveira Júnior*
05/05/19 às 09h11

Lembro-me da movimentação na estação ferroviária. Trem chegando, trem partindo, gente indo, gente vindo, e a plataforma lotada. Era a década de 1960. Que época boa! O tempo passou, a vida mudou, a estrada de ferro deixou de ser viável para o transporte de passageiros.

Os trilhos foram retirados de dentro da cidade, dando lugar a uma avenida que melhorou o trânsito, e a antiga estação acabou perdendo a sua função original. Isso não significa que ela deva simplesmente desaparecer, afinal de contas trata-se de um marco relevante da história de Araçatuba, que, como a grande maioria dos municípios do Noroeste Paulista, surgiu às margens da ferrovia.

Sob o argumento de melhorar a mobilidade na região central de cidade, a Prefeitura estuda demolir o prédio. Sou contra. Enxergo ali parte significativa da memória individual e coletiva da municipalidade.

Estou falando da necessidade de preservarmos a nossa identidade histórica, pois é por meio da memória que nos orientamos para compreender o passado, o comportamento de um determinado grupo social, cidade e nação. Ela (a memória) contribui para a formação de identidade, resgate de raízes, estando relacionada à formação cultural e econômica de um povo.

O fato de o prédio não possuir valor arquitetônico é secundário. A questão é que ele tem valor histórico. E o resgate da memória é envolvido por sentimento que estimula e alimenta a necessidade de o homem saber sobre si, sobre o seu passado, o seu presente, as suas conquistas, sendo combustível da história.

É preciso reconhecer que boa parte da história de Araçatuba passou por aquela plataforma e estamos inacreditavelmente desprezando isso.

Entendo que o crescimento das cidades, as exigências de modernização e o progresso econômico não devem justificar danos irreparáveis, com adaptações ou supressões de edifícios.

É bem verdade que a urbanização abre portas para a expansão do comércio e a remodelação do espaço, o que é louvável, mas para isso não podemos cometer o pecado de destruir um patrimônio.

Embora não seja tombado, a plataforma da avenida dos Araçás é sim um patrimônio que faz parte da identidade araçatubense, das suas características, costumes, comportamentos.

É uma pena que, enquanto há crescente preocupação e engajamento entre pesquisadores, historiadores, empresas, instituições e simpatizantes de todo o mundo sobre a questão, por aqui nós damos de ombros ao tema. Fizemos isso diversas vezes.

Um dos tristes exemplos foi quando permitimos a demolição de duas belíssimas igrejas localizadas ao redor da praça Rui Barbosa – uma delas deu lugar à catedral Nossa Senhora Aparecida.

Pelo andar da carruagem, receio que, quando nos dermos conta de mais essa perda, seja tarde demais. Não podemos permitir que isso ocorra.

 

 

 

*Aurélio Luiz de Oliveira Júnior é engenheiro civil e presidente do Sinduscon OESP

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