Opinião

Inteligência artificial: servidão humana?

A integração da IA no nosso fazer diário parece ter, a cada dia que passa, mais espaço, atuação e legitimação.

Francisco Estefogo
15/04/24 às 20h00

Nos últimos tempos, a temática da Inteligência Artificial (IA) triunfa em quase toda e qualquer pauta social. Irremediavelmente, está presente na automação dos avanços científicos, principalmente, na área da saúde, além da seara do entretenimento e da educação, bem como do universo midiático, do mercado financeiro, das empresas de modo geral, e por aí vai. Mais particularmente, dentre outras façanhas, a IA elabora textos, concebe imagens, produz vídeos e sutura linhas de programação mediante a uma mera solicitação do usuário. A integração da IA no nosso fazer diário parece ter, a cada dia que passa, mais espaço, atuação e legitimação. Sinaliza ser um fato contemporâneo sem retorno, assim como foi a imprensa de Gutenberg, entre 1439 e 1440, as máquinas a vapor, as vacinas, o telefone, o automóvel, a internet, o indefectível celular, entre outros incontáveis progressos tecnológicos que hoje fazem parte do nosso cotidiano. Assim, o que paira no ar é compreender as implicações da IA na sociedade contemporânea, tal qual os seus impactos e desafios. Será que a inteligência humana estará à mercê da IA? Esse questionamento envolve aspectos sobre a responsabilidade moral e ética no que se refere às emoções, como também à natureza da mente, da consciência, da relação e da autonomia das máquinas concernentes à criatividade e à identidade humana.

À luz desse terreno pantanoso da modernidade, a IA emerge como uma das mais significativas fronteiras filosóficas hodiernas, ao suscitar reflexões profundas e ruidosas sobre o limiar da gênese das faculdades mentais e do futuro da própria humanidade.  Em relação à consciência, Aristóteles (384-322 a.C.), filósofo grego, concebia a mente humana como uma capacidade intrinsecamente ligada ao corpo, atinente ao pensamento e ao raciocínio. Para o pensador da antiga Grécia, a experiência sensorial é absolutamente central no engendramento dos saberes e que a mente atua como uma capacidade organizadora e direcionadora das sensações. Na mesma linha, Immanuel Kant (1724-1804), um dos principais filósofos do Iluminismo, entendia que a mente humana se constitui por estruturas inatas que organizam e interpretam a experiência sensorial. Assim, a compreensão do mundo é mediada pela mente, que forja nossa percepção e interpretação da realidade.

Já no cenário contemporâneo, decisivamente permeado pela IA, as contribuições como as de John Searle, um dos mais influentes filósofos da atualidade, questionam a capacidade de as máquinas realmente compreenderem e possuírem consciência. O pensador americano defende que mesmo se a IA puder replicar com exatidão o comportamento humano, não significa necessariamente a compreensão genuína das inúmeras nuances de todo o contexto social, manancial da construção dos significados. Em outras palavras, como a IA se baseia, a rigor, na fonte de dados alimentados, gerando particularmente, os onipresentes algoritmos, é patente afirmar que o seu processamento está relacionado somente em um nível sintático, sem o conhecimento profundo ou a compreensão mais abrangente do que e como algum fenômeno está efetivamente acontecendo, em especial, alusivo à dimensão das emoções humanas. Ademais, Searle argumenta que os processos mentais são frutos do funcionamento do cérebro e que a consciência é uma característica fulcral da mente. Grosso modo, a relação entre a consciência e a mente se calca na intencionalidade, idiossincrasia tipicamente humana. 

Uma outra armadilha da IA se refere ao modo como é alimentada, visto que, a considerar a internet como promotora “do idiota da aldeia a portador da verdade”, concepção preconizada por Umberto Eco (1932-2016), filósofo e linguista italiano, ressalta-se que os nacionalistas extremistas, sexistas, racistas, religiosos fanáticos, fascistas, criminosos, homofóbicos, xenófobos, fundamentalistas, dentre outros párias, também são, infelizmente, asseclas da rede. Se o inconformismo contra a prevalência da inerente pluralidade cultural à humanidade continua a se manifestar na vexatória instrumentalização das redes sociais, indubitavelmente, no que toca ao acervo do funcionamento da IA, não seria diferente.

Portanto, mais do que nunca, na era da IA, o pensamento crítico é imperativo para se tomar decisões informadas e independentes, de maneira a discernir o que é legítimo ou apenas uma falácia, mesmo oriunda das supostas potentes e promissoras máquinas. No mais, a criticidade, um dos pilares da democracia, impulsiona o avanço intelectual e científico com base na perene indagação, decorrente de uma variedade de perspectivas e pontos de vistas, tal e qual de ideias pré-concebidas, tidas como verdades absolutas. Dessa forma, a educação crítica, que, exposta à multidiversidade de visões de mundo, analisa as fontes, avalia as evidências e questiona os pressupostos por meio de discussões e debates, é terminantemente primordial para o desenvolvimento da prática reflexiva crítica orientada para curiosidade, investigação e transformação.

Por outro lado, Daniel Clement Dennett, outro filósofo estadunidense, propõe uma abordagem mais otimista no tocante aos efeitos da IA, defendendo que novos tipos de consciência podem emergir de sistemas computacionais complexos, tais como a ubíqua IA. Para Dennett, a mente é uma composição emergente. Sendo assim, a IA poderia eventualmente alcançar formas de consciência jamais tidas, que não dependem apenas de substratos biológicos, mas dos meios pelos quais é estruturada. Destarte, de acordo com o estudioso cognitivista e ferrenho defensor do darwinismo, o cérebro humano está em constante evolução. Como episódios que legitimam esse posicionamento, Dennett recorre à arte e à agricultura na qualidade de exemplares catalisadores, “os mais notáveis da história humana”, conforme postula o entusiasta da teoria evolucionista, no que diz respeito à expansão e aos avanços das potencialidades mentais. 

À vista dessa discussão complexa e aporética de tão cadente e controverso assunto, que ainda vai render muitas polêmicas, posicionamentos divergentes e descobertas, especialmente de ordem ética e moral, por ora, talvez seja mais profícuo entender que as emoções humanas, ímpares em cada um de nós, sejam dificilmente replicadas por máquinas. Os nossos sentimentos relacionados ao amor, à potência de viver, às saudades, à alegria, à fé, ao respeito, à satisfação, à superação, à resistência e à expansão, tal como às reflexões, à liberdade, às lágrimas, aos sorrisos, à capacidade de gerar outro ser e aos desejos e sonhos, dentre outras inúmeras sensações inexoravelmente humanas, autorizam a constatação de que, a princípio, não há, e tampouco haverá, qualquer tipo de servidão e submissão à IA. Por mais que a humanidade tenha recentemente titubeado no que tange ao cuidado com o outro e com o meio ambiente, devido à sua desvairada soberba, prepotência, egoísmo e ganância, ainda somos únicos. Decerto, as máximas de Mark Twain (1835-1910), escritor e humorista estadunidense, ou seja, “o homem é o único animal que ri e chora, pois é o único animal que se vê como realmente é” , e de Gabriel García Márquez (1927-2014), escritor e jornalista colombiano, a saber, “a vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda e como a recorda para contá-la” , duvidosamente serão suplantadas pela IA. A conferir.

Membro titular da Academia Taubateana de Letras, Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada pela PUC-SP e professor do programada de Linguística Aplicada da UNITAU. Ademais, é pós-doutorando em Filosofia da Linguagem pela PUC-SP e pela UNIFESP”

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

Francisco Estefogo
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