A subversão sempre foi um catalisador de transformações históricas, sociais e culturais, mas também um alvo de repressões, polêmicas, críticas e controvérsias. Nesse sentido, o filme Um completo desconhecido, centrado na figura de Bob Dylan, viceja reflexões sobre o papel da subversão nas artes, particularmente, por intermédio da música. A trajetória de Dylan, interpretado por Timothée Chalamet no longa baseado no livro Dylan goes electric! , que marca sua constante reinvenção, frustrando as expectativas do público, ecoa um dilema fundamental na contemporaneidade: por que o ato de subverter normas, padrões e estruturas incomoda tanto?
A subversão pelas linguagens das artes, especialmente na música e na literatura, questiona a ordem estabelecida. Em outras palavras, indaga o status quo. Dylan, por exemplo, desafiou as convenções do folk tradicional ao abraçar o rock, movimento que o fez ser julgado como traidor por uma parcela de sua audiência, veementemente registrado na trama cinematográfica. A angústia gerada por essas rupturas pode ser compreendida, por exemplo, à luz das críticas à indústria cultural discutidas por Theodor Adorno (1903-1969), filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão. De acordo com Adorno, a verdadeira arte deve desestabilizar e não apenas reproduzir fórmulas consolidadas. Dylan fez exatamente isso, ao se afastar do papel de “porta-voz de uma geração” e explorar novas formas de expressão. A partir da folk music, o que conquistou tanto os palcos de concertos quanto o sucesso nas paradas, sua jornada atingiu um ápice em 1965, quando sua eletrizante apresentação inovadora de rock and roll elétrico no emblemático Festival de Newport, para além da folk music , redefiniu os rumos da música no século XX.
Uma outra pensadora que trata dessa questão das mudanças revolucionárias é Angela Davis. A filósofa socialista estadunidense entende a subversão como ferramenta de resistência política. Nessa toada, a música de protesto, da qual Dylan faz parte, tem uma história longa e enraizada em tradições como o blues e os spirituals, que expressavam o sofrimento e a luta do povo negro. O incômodo causado por essa expressão artística não é apenas estético, mas também político, pois desmascara as desigualdades e questiona as estruturas de domínio e opressão.
Além de Davis, Frantz Fanon (1925-1961) é outro filósofo que contribui para essa discussão ao abordar a violência simbólica e a necessidade da decolonização cultural. Em Os Condenados da Terra , Fanon, natural das Antilhas francesas da colônia francesa da Martinica, argumenta que a ruptura com padrões hegemônicos é um passo essencial na construção de novas subjetividades. Quando Dylan subverte os protocolos esperados pela indústria da música e pelo público, somado à provocação de desconfortos estéticos, igualmente propõe novos rearranjos simbólicos que contestam a estabilidade das identidades culturais.
Ademais, Michel Foucault (1926-1984), filósofo francês, por sua vez, discute como o poder se manifesta por meio do controle dos discursos. A subversão artística, como a de Dylan, afora um ato de rebeldia individual, é similarmente um deslocamento das relações de poder. Quando um artista recusa rótulos ou contraria categorias estabelecidas, ele reconfigura os limites do que pode ser dito, feito e imaginado. É o que Dylan faz, por exemplo, na música Like a Rolling Stone, ao questionar no verso “Como se sente? Por estar sem um lar, sem uma direção, como um completo desconhecido, como uma pedra que rola?”. A reflexão proposta é alusiva aos caminhos predefinidos, o que contradiz sua vertente de se lançar aos movimentos, assumir riscos se preocupar com mais questões amplas, como a Guerra do Vietnã, que Dylan fez com veemência, de modo a enxergar, sentir e agir além do que as músicas apregoam.
Apreende-se, assim, que a subversão, de alguma maneira, enerva porque abala certezas, desestabiliza confortos e denuncia injustiças. Ao mesmo tempo, é precisamente esse potencial de perturbar que torna a arte, a filosofia e a política frutíferos espaços de transformação. Dylan, como tantos outros artistas e pensadores, expandiu os limites da folk music e do rock ao incorporar a poesia complexa, a crítica social e abordagens expansionistas e revolucionárias nas suas antológicas composições. Suas letras são permeadas por camadas múltiplas de significados, metáforas e intertextualidades que dialogam com a literatura, a história, a filosofia e a política. Foi o primeiro músico a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura em 2016, a partir da justificativa de ter criado "novas expressões poéticas dentro da grande tradição da canção americana", segundo os organizadores do tão cobiçado reconhecimento. Subversivo como é, Bob Dylan não apareceu para ser laureado em Estocolmo, cidade sede da honraria internacional. Alegou ter “outros compromissos”.
Nesse esteio, é possível afirmar que a subversão não apenas importuna: desmonta ilusões, rivaliza dogmas e lembra que toda estrutura, por mais sólida e tradicional que pareça, é sempre passível de ruína. Ao priorizar “outros afazeres”, a atitude de Dylan, de algum modo, indica que nenhum prêmio é maior do que a coerência relacionada à nossa essência humana de sermos construtores da nossa própria história. Não precisamos de aval ou reconhecimento para sermos imortais.
