“Policial atira em goleiro com bala de borracha após jogo em Goiás”. “Homem é preso após dar pauladas em motociclista no litoral de SP”. “Torcedores colombianos começaram a brigar com uruguaios em setor no qual estavam familiares dos jogadores do Uruguai”. “Homem arrasta carros com retroescavadeira e deixa feridos após festa no Ceará”. Aparentemente ocorridas por motivos torpes, essas são algumas vexatórias situações dos recentes banzés que ilustram exemplos sintomáticos de um clima de agressividade e impaciência generalizada da contemporaneidade que, rachada por conflitos sangrentos e sob as fissuras da polarização, de algum modo, aguça ainda mais os nossos pavios curtos. Em plena era da lógica utilitarista que vivemos, trata-se de um fenômeno que preocupa diversos aspectos do tecido social, uma vez que os episódios acima, à primeira vista, apontam para ocorrências marcadas invariavelmente pela desumanização que, consequentemente, desemboca em ataques verbais e, não raro, físicos. Talvez, estejamos mais intolerantes devido à falta de confiança mútua, à segregação da coletividade, bem como à competição na irrefreável busca pela ascensão social do mundo capitalista, além da inexistente afeição e paciência para com o outro, assim como ao total desdém em relação à imanente multidiversidade.
Pelas lentes filosóficas, os pensadores Hobbes (1588-1679), Sartre (1905-1980) e Adorno (1903-1969) iluminam caminhos para a compreensão mais profunda dos sentimentos de intolerância que assolam a humanidade. Hobbes, particularmente, em sua obra Leviatã, descreve o estado de natureza como uma condição de guerra de todos contra todos, onde a vida é "solitária, pobre, desagradável, bruta e curta" . O filósofo e matemático inglês aponta que a falta de uma autoridade central leva à desconfiança mútua e à violência. Por esse ângulo, a intolerância contemporânea pode ser entendida como uma reemergência desse estado de natureza em microescala, onde a ausência de coesão social e a fragmentação das comunidades geram cisma e, então, a brutalidade. Nesse esteio hobbesiano, é possível considerar a necessidade do fortalecimento das instituições com vistas à promoção da coesão social e da confiança mútua. Programas comunitários, atividades culturais e espaços de convivência pública podem, a princípio, possibilitar a reconstrução da teia social mais humanizada, ao restabelecer os elos e a empatia para, em consequência, aplainar um pouco as bordas mais ásperas das espinhosas antipatia e hostilidade.
O filósofo francês Sartre, por sua vez, fundamentado em suas concepções existencialistas, afirma que o ser humano está condenado a ser livre e, portanto, a construir seu próprio significado em um mundo sem sentido intrínseco. Essa liberdade radical, que comumente se evapora no calor do pragmatismo, pode nos levar à sensação de angústia e abandono. Por conseguinte, quando mal direcionada, pode resultar em atitudes de intolerância e violência. A sensação de desamparo existencial pode ser exacerbada pelas pressões sociais modernas, contingência que pode nos conduzir a atos de desespero e agressão. Com base nas ideias de Sartre, é fundamental promover a educação que enfatize o altruísmo, o autoconhecimento e o entendimento das próprias angústias existenciais. Por meio de inciativas de programas educacionais que abordem a filosofia, a psicologia e as artes, por exemplo, desenha-se um horizonte onde, a rigor, é possível compreender as nossas próprias emoções e as dos outros, reduzindo, assim, a onipresente intolerância.
Já Adorno, no atemporal livro Dialética do Esclarecimento, critica a racionalidade instrumental, ou seja, a estrutura de pensamento moderno que privilegia a utilidade da ação e que considera os objetos como meios para alcançar um determinado fim, reduzindo a vida a meros cálculos utilitários, como os famigerados algoritmos e, assim, desumanizando as relações sociais. Essa perspectiva adorniana pode explicar a intolerância dos tempos atuais como resultado de uma sociedade que valoriza o lucro e a eficiência acima das relações humanas e da benevolência. A frieza calculista das interações sociais pode desumanizar o "outro", expediente que torna a violência e a intolerância mais aceitáveis. O filósofo, sociólogo e compositor alemão destaca a importância de humanizar as relações sociais a partir do bem-estar social, da justiça econômica e da igualdade. A promoção de ambientes mais humanos, com ênfase na valorização da vida comunitária, pode contrabalançar as forças desumanizadoras da modernidade e, porventura, construir sociedades mais tolerantes, equânimes e justas.
A intolerância é um dos maiores desafios da hodiernidade, pois corrói as bases da convivência civilizada e do respeito mútuo, como ilustram os acontecimentos supracitados. Em tempos em que a pluralidade de ideias e a multidiversidade deveriam ser celebradas como um sinal de progresso, além de ser um manancial epistêmico de concepções plurais de possibilidades outras de estar no mundo, certamente, por ser uma das idiossincrasias da humanidade, encontramos, paradoxalmente, o aumento da belicosidade, sobretudo, física, contra opiniões divergentes. Numa sociedade baseada na lei do lucro e da eliminação daqueles considerados mais fracos, a intolerância não apenas sufoca o diálogo, mas também alimenta divisões profundas que ameaçam a coesão social e o bem-viver, como sugere Krenak, filósofo, ativista ambiental, poeta, escritor brasileiro e Imortal da Academia Brasileira de Letras. No cenário atual, onde segregatórios e preconceituosos discursos de ódio e exclusão ganham terreno e se enrobustecem, polarizando a sociedade em comunidades isoladas, lembrar as palavras de Umberto Eco (1932-2016), filósofo, semiólogo e linguista italiano, torna-se urgente: "fundamentalistas dão um toque de arrogante intolerância e rígida indiferença para com aqueles que não compartilham suas visões de mundo."
