Todo e qualquer tipo de linguagem, verbal ou não, que nos circunda, é terminantemente central na estrutura constitutiva da nossa existência. Portanto, como a contemporaneidade é constantemente enviesada por dinâmicas epistêmicas funestas, maciçamente veiculadas na internet e nas mídias em geral, marcadas por narrativas e episódios de opressão, preconceito, destruição, soberba e negligência, reflexões acerca dos desdobramentos da conjuntura vigente, em relação às fundações dos sujeitos frente a essas novas representações da modernidade, fazem-se prementes.
Nesse sentido, Santo Agostinho (354-430 d.C.), um dos mais importantes teólogos e filósofos nos primeiros séculos do cristianismo, concebe o ser humano a partir da composição divina unitrinitária da alma entre inteligência, memória e vontade. Dito de outra forma, trata-se dos três constituintes da alma que são indivisíveis e estão em íntima relação uns com os outros. Pela ótica agostiniana, a consonância entre tais elementos é o que engendra a configuração antropológica e ontológica dos seres humanos. Uma vez mediado pelas linguagens, esse movimento pode ser corrompido, infringindo a natureza da pureza de ser, amar e conhecer. Consequentemente, como a alma pode adoecer por se confundir com as coisas que ama relacionadas às imagens sensíveis e exteriores que criou em si, os afetos, a imaginação, a memória, a criticidade, o senso comum, o entendimento, bem como a vontade podem languidamente ser estruturadas.
Dado o fato de que as linguagens hodiernas refletem situações apocalípticas, de destruição, guerra, miséria, intolerância e silenciamento, talvez oportunizar formas de organização discursiva para a produção criativa, democrática, crítica, multidiversa e compartilhada de saberes, pensares e sentires diversos possa ser uma chance para a alma não ser corroída e enganada. Com o advento das indefectíveis câmeras dos celulares, bem como com presença massiva da imprensa (graças a Deus!), os destaques verborrágicos decorrentes de circunstâncias vexaminosas nos recentes noticiários, inclusive e especialmente, na mídia internacional, têm sido a ordem da vez.
As linguagens contemporâneas representam um lamaçal de atrocidades. Com o amargo índice de 13% das mortes no mundo de COVID-19, o Brasil, por exemplo, figura no 3º lugar, com quase 700 mil óbitos, atrás apenas dos EUA e da Índia. As políticas públicas federais claudicantes concernentes a abrangentes campanhas de prevenção e vacinação, como também a falta de testes em massa e a avassaladora pobreza, derivada da abissal desigualdade social, são alguns dos ingredientes responsáveis por essa inesquecível calamidade. Além dessa desumanidade, a Polícia Rodoviária Federal, utilizando uma câmara de gás improvisada, torturou e matou Genivaldo de Jesus, negro e diagnosticado com esquizofrenia, no dia 25 de maio de 2022, dentro do porta-malas da viatura da corporação. A brutalidade, que invadiu as notícias nacionais, conota um ato de racismo e opressão por uma das instituições de autoridade nacional, a priori, mais respeitadas do país. Afora essa truculência que abalou a nação, mais de 9 km² da área da floresta amazônica foram devastados de janeiro a setembro de 2022, o maior índice nos últimos 15 anos. Carência de base científica, despreparo técnico, permissividade com os garimpeiros ilegais e corrupção, além de atos de superioridade e soberba da ambiência governamental são alguns dos motivos que levaram à total destruição de extensas áreas da Amazônia. Para finalizar os recentes exemplares de selvageria do cenário presente, os sangrentos conflitos entre a Ucrânia e a Rússia, bem como entre a Palestina e Israel, já ceifaram quase 320 mil vidas. Poder e intolerância são algumas das razões das atividades belicosas que tentam impor autoridade máxima frente aos territórios de menor poder bélico, a princípio, soberanos.
Destarte, visto que a hodiernidade está normalmente representada por linguagens plúmbeas, descrentes e derrotistas, como aludido pelas amostras acima, é preciso refletir sobre os fundamentos que permeiam essas representações, uma vez que a alma, na visão agostiniana, constrói conhecimentos embasada nelas. Ao deturpar a alma, as linguagens nefastas podem obscurecer a identificação do que deve ser a felicidade humana, acarretando uma representação equivocada do nosso próprio bem como seres humanos. Como afirma Demócrito (460-370 a.C.), filósofo grego, “a felicidade não reside nas posses e nem em ouro, ela mora na alma”.
De acordo com os trágicos acontecimentos retratados, é possível afirmar que a modernidade é um manancial de autoridade, vaidade, preconceito, soberba, ignorância, opressão e egoísmo, com atrozes consequências. Dessa forma, questionamentos críticos, democráticos e transformadores, por intermédio de atividades de fraternidade e afeto, deveriam ser fomentados de modo que a alma sobreponha as linguagens taciturnas dos tempos modernos e, então, permita que a vontade, movida pelo amor, posicione-se como uma força intencional que legitime o seu papel para além da articulação entre o mundo das representações e as capacidades sensoriais. Epicteto (50-138 d.C.), filósofo grego, ensina-nos a importância de nutrirmos a nossa alma (com afetuosidade, compaixão, acolhimento e tolerância): “lembrai-vos que em toda festa, tendes dois convivas a entreter - o corpo e a alma; e o que dais ao corpo, na realidade o perdeis. Mas o que dais à alma, permanece para sempre.”. Em consideração a esse alerta do pensador estoico, aprendemos, então, que, na contramão do recrudescimento do discurso de ódio, devastador da nossa existência e ludibriador da nossa alma, deveríamos fazer dos dias vindouros uma memorável festa coletiva de alegria, paz e amor!!
