Opinião

Quanto vale a Fé?

A interminável busca pela certeza irrestrita tem sido historicamente um aspecto social de separação, elemento que fossiliza posições e impede a construção de pontes entre as imanentes diferentes visões de mundo

Francisco Estefogo
17/02/25 às 18h00

“A certeza é o grande inimigo da união. A certeza é o inimigo mortal da tolerância. Mesmo Cristo não tinha certeza quando chegou seu fim. “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” , gritou em sua agonia do sofrimento na cruz. Nossa fé é viva precisamente porque caminha de mãos dadas com as dúvidas. Se existisse apenas a certeza, e não houvesse dúvida alguma, não haveria o mistério, e, em consequência, não haveria a necessidade da fé” , profere o cardeal Lawrence, brilhantemente interpretado por Ralph Fiennes, na homilia de uma sessões da eleição para o novo Papa, temática central do impactante filme Conclave . O longa, baseado o livro homônimo de Robert Harris, com 8 indicações ao Oscar 2025, inclusive para melhor ator, viceja reflexões sobre a redenção e a intervenção divina que frequentemente emergem de onde menos se espera. Também aventa que, muitas vezes, as verdades mais significativas se revelam a partir dos questionamentos e das incertezas, mais do que da convicção incondicional e míope.

Nesse sentido, ao propagar que as veracidades mais valiosas podem emergir da indagação, a película, de algum modo, contrapõe a rigidez dogmática dos extremismos, que normalmente se fecham aos diálogos e às autocríticas.  No contexto ideológico hodierno polarizado, implica que o pensamento crítico, a reflexão contínua e a disposição para revisar crenças são absolutamente fulcrais para evitar as armadilhas da intolerância, do autoritarismo, do preconceito, da cegueira ideológica e da desumanização do outro, independentemente da doutrina religiosa. Destarte, a produção cinematográfica de grande repercussão mundo afora, devido à polêmica, principalmente, concernente ao final arrebatador, reforça a ideia de que as incertezas podem ser os direcionamentos para a sabedoria e a racionalidade, ao passo que a assertividade cega pode resultar em sectarismo e exacerbado fanatismo.

A interminável busca pela certeza irrestrita tem sido historicamente um aspecto social de separação, elemento que fossiliza posições e impede a construção de pontes entre as imanentes diferentes visões de mundo. O filósofo existencialista dinamarquês Kierkegaard (1813-1855), por exemplo, compreendia a fé, decorrente da inexistência da inquestionabilidade absoluta, como um salto ao desconhecido. Em sua obra Temor e Tremor, o pensador argumenta que a angústia diante das incertezas é parte essencial da experiência humana para se desenhar um horizonte de liberdade. De maneira análoga, Angela Davis, filósofa socialista, em seu ativismo e pensamento crítico, defende que a luta por justiça social requer constantes aberturas às mudanças e à revisão de suposições, uma vez que apenas por meio do questionamento contínuo se pode avançar em direção à libertação coletiva.

No mais, a relação entre a certeza e a intolerância similarmente atravessa as discussões sobre colonialismo e opressão. Aimé Césaire (1913-2008), dramaturgo, ensaísta e político da negritude, em seu "Discurso sobre o Colonialismo" , denuncia como a certeza europeia sobre sua própria superioridade acarretou a subjugação violenta de povos ao redor do mundo. O dogmatismo colonial justificou a exploração e a destruição de culturas inteiras. No mesmo sentido, Paulo Freire (1921-1997), educador e filósofo brasileiro, no atemporal Pedagogia do Oprimido , enfatiza que o conhecimento genuíno é produto de diálogos. Logo, a abertura ao outro exige a recusa da certeza indiscutível em favor da escuta e do aprendizado mútuo.

Se Cristo, no momento de sua crucificação, expressou dúvidas ao inquirir "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" , segundo os relatos bíblicos, é patente afirmar que até mesmo as experiências espirituais mais profundas não são imunes às incertezas. O reconhecimento da dúvida como parte essencial da fé oportuniza a compreensão mais potente da espiritualidade. A filósofa nigeriana Ifi Amadiume, ao analisar as cosmologias indígenas, semelhantemente, destaca a fluidez do sagrado e a importância de narrativas abertas e multidiversas, nas quais a verdade nunca é rígida, mas sim um processo dinâmico de descoberta.

A certeza, desse modo, em vez de ser um fundamento seguro para a união, revela-se um obstáculo à convivência plural. Se há apenas certezas, não há mistérios; sem mistério, não há necessidade da fé. Consequentemente, nem espaço para a alteridade. A dúvida, ao contrário, permite a coexistência de múltiplas perspectivas e a construção de um mundo onde a tolerância e a união sejam possíveis. O enredo do filme aponta que as sociedades e instituições que abraçam os questionamentos são mais abertas ao diálogo e à justiça e, portanto, à expansão. Conforme ensinou bell hooks (1952-2021), ativista antirracista estadunidense, “o amor é um ato de resistência e, para que ele floresça, é necessário renunciar à certeza em favor da escuta e da aprendizagem constante” . Dito de outra forma, os cenários de incertezas e de humildade epistêmica fomentam a comunhão humana. 

Apreende-se, assim, que a fé, não a encarceradora às correntes da servidão de uma exclusiva crença, posição ideológica ou líder, tem peso de ouro para o avanço humano. A devoção interrogativa desafia as limitações do ego, oportuniza a colaboração e reconhece a vulnerabilidade de qualquer posicionamento como um ponto de partida para a construção de um futuro mais justo, democrático e solidário. Nesse processo, a confiança mútua, a empatia e o compromisso com o bem comum se tornam os pilares fundamentais para que a humanidade transcenda suas divisões e construa possibilidades de liberdade e dignidade para todos. Até porque, de modo geral, todas as religiões e filosofias pregam o amor entre as pessoas como fundamento da convivência e da ética. Praticar a fé dentro dos templos religiosos não tem valor real se, no dia a dia, não há consideração pelas diferenças e as opiniões divergentes. A espiritualidade genuína relacionadas a fé não pode se restringir a repetitivos rituais, cânticos ou orações mecânicas, mas deve se manifestar na forma como tratamos os outros, especialmente aqueles que não compartilham de nossas crenças, valores ou estilos de vida. Como entoa Mahatma Gandhi (1869-1948), líder pacifista indiano, “a minha fé mais profunda é que podemos mudar o mundo pela verdade e pelo amor”.

Membro da Academia Taubateana de Letras, Francisco Estefogo é docente da Universidade de Taubaté e da FATEC-Taubaté. Também é pós-doutorando em Filosofia da Linguagem pela UNIFESP e PUCSP.


* *Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

Francisco Estefogo
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