Opinião

Rui Barbosa pisou na bola

"Toda vez que há a Copa América (disputa de seleções do futebol sul-americano), algum jornalista iconoclasta derriça a imagem de nosso político intelectual"

Hélio Consolaro*
20/11/19 às 13h00

Na reorganização de minha biblioteca, achei um livro antigo, publicado em 1949 por Cecília Meireles chamado Rui, pequena história de uma grande vida .

Rui era o Rui Barbosa, cantado em verso e prosa. Com ele, baiano ganhou a fama de ter cabeça grande porque é muito inteligente. A publicação do livro de 1949 era uma forma da "Casa de Rui Barbosa" comemorar os 100 anos de nascimento do herói brasileiro. Dia 5 de novembro de 2019 faria 170 anos.    

No final de cada capítulo, a escritora escreveu um pensamento significativo do nosso Rui Barbosa. No capítulo "Menino prodígio", ela transcreveu o pensamento do biografado: "Porque só há uma glória; e essa não conhece a soberba nem a fatuidade." Fatuidade significa presunção e vaidade. 

Naquela época, jogador de futebol não era valorizado. O caso que será contado aconteceu em 1916 (e não mudou muito), as pessoas faziam belos discursos, mas a prática era outra. E Rui Barbosa não escapou da hipocrisia humana.

Toda vez que há a Copa América (disputa de seleções do futebol sul-americano), algum jornalista iconoclasta derriça a imagem de nosso político intelectual.

O site "História do Futebol", em 2010, contou o seguinte fato, cuja narrativa reproduzo:

No mês de julho de 1916, quando a seleção brasileira foi disputar o primeiro campeonato sul-americano, em Buenos Aires, havia escassez de navios devido à Primeira Guerra Mundial. O navio disponível era o Júpiter, que levaria à capital argentina a delegação, tendo apenas um terço dos seus camarotes ocupados.

O ministro do Exterior, Lauro Miller, pensou em embarcar a nossa delegação de futebol no mesmo navio: “Olha, Sr. Conselheiro (Rui Barbosa), os jogadores brasileiros viajarão no Júpiter.”

Rui Barbosa respondeu: “Pois saiba o senhor que eu, minha família e meus auxiliares, não viajamos com essa corja de malandros. Ou eles ou eu!”.

O navio Júpiter partiu sem os jogadores da seleção que tiveram de viajar de trem. Eles chegaram no dia da abertura do sul-americano, quase perderam o certame.

Pelo jeito, isso foi dito por Rui Barbosa com muita soberba e fatuidade.

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor.

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