Opinião

Século XXI: prelúdio do retrocesso civilizatório?

Matamos, xingamos, ofendemos, ignoramos, oprimimos e negligenciamos os que não se assemelham a nós no que tange à nossa aparência, idade, etnia, classe social, ideologia e até, vejam o absurdo, a quem torce por um time de futebol diferente do nosso.

Francisco Estefogo
15/03/24 às 18h00

Recentemente, o caso de um garoto negro americano, de 18 anos, ter sido impedido de adentrar a escola por causa do estilo seu cabelo viralizou nas mídias digitais e, consequentemente, mundo afora. A proibição de frequentar as aulas foi fichinha perto da decisão do juiz distrital estadual do Texas, ao apoiar a decisão da instituição escolar que, signatária da tal Lei Crown , mantém um código de vestimenta. A estapafúrdia e vexatória deliberação não se trata de vestiário, à primeira vista, mas de preconceito com base em etnia e textura de cabelos, incluindo tranças e dreads, razão da censura escolar.

Certamente, esse não foi o primeiro escancarado episódio isolado de racismo. Situações reprováveis como essas, infelizmente, acontecem todos os dias, principalmente no Brasil. Para citar alguns casos emblemáticos decorridos na história, nos anos 60, na mesma nação americana, considerada a maior democracia do mundo, havia hospitais, cemitérios, escolas, banheiros e até assentos de ônibus exclusivos para os brancos. Foi somente a partir da Lei de Direitos Civis, apoiada por Martin Luther King e Rosa Parks e promulgada em 02 de julho de 1964, que esse descalabro vergonhoso da humanidade mudou (ou parecia ter mudado). 

Outro similar revés humano foi o apartheid que, idealizado pelas elites brancas da extrema-direita, preconizava a supremacia europeia branca em relação às pessoas pretas locais. Dentre outras medidas apregoadas pelo despudorado regime, estabelecido na África do Sul entre os anos de 1948 e 1994, a população negra não podia circular livremente, deveria ter identificação racial documentada e tinha acesso restrito a serviços de educação e à saúde, quando não lhes eram absolutamente negados. Nelson Mandela (1918-2013), eleito presidente em 1992 e um dos maiores líderes de resistência contra o apartheid , ficou preso por 27 anos numa ilha isolada por incentivar greves e participar de movimentos em oposição à essa esdrúxula segregação. 

Frente à linha cronológica descrita, parece que o escabroso evento de repúdio aos dreads do menino negro americano sinaliza que o século XXI é, então, um fértil terreno para o retrocesso civilizatório, indubitavelmente, abrangendo a intolerância religiosa, a misoginia, o etarismo, a LGBTfobia, a aporofobia, a gordofobia e muitas outras chagas que o homo sapiens (sábio mesmo?) nutriu e tem soberbamente alimentado. Sobreleva ressaltar que o nazismo, derivado de ideologias de extrema-direita, grosso modo, defendia a superioridade branca, suprimia manifestações artísticas e culturais, além de rechaçar pessoas negras, ciganas e com deficiência física, bem como a comunidade LGBTQI+, dentre outros grupos sociais. Deu o que deu: mais de 6 milhões de vidas ceifadas.

É paradoxal pensar nos avanços que a humanidade fez nos últimos 50 anos em relação à mobilidade, à comunicação, à ciência de modo geral, à tecnologia, enfim, a todos os aparatos e contingências que nos concebem e nos legitimam como “seres que sabem”, mas, ao mesmo tempo, quase nada no que diz respeito ao cuidado de si e do outro, como discutia Michel Foucault (1926-1984), filósofo francês. Matamos, xingamos, ofendemos, ignoramos, oprimimos e negligenciamos os que não se assemelham a nós no que tange à nossa aparência, idade, etnia, classe social, ideologia e até, vejam o absurdo, a quem torce por um time de futebol diferente do nosso.

Dessa forma, como somos, a rigor, homo sapiens, talvez alguns antídotos para essas máculas humanas contemporâneas do século XXI possam nos salvar da transição para homo ignarus , como descreve Steven S. Gouveia, filósofo, na irreparável obra “Homo Ignarus: Ética Racional para um Mundo Irracional”. A opressão racial que nega a identidade negra, como a sofrida pelo caso do garoto americano supracitado, poderia ser combalida, a princípio, pela leitura do magnânimo “Pele Negra, Máscaras Brancas”. A obra, escrita por Frantz Fanon (1926-1961), filósofo e crítico do racismo, discute os fantasmas da branquitude e o seu dogmático colonialismo que perpetua estruturas de poder, marginaliza as pessoas negras e impõe normas culturais eurocêntricas. 

Da mesma forma, Bell hooks - assim mesmo, com letra minúscula - (1952-2021), escritora, professora, teórica feminista, artista e ativista antirracista estadunidense, igualmente, seria um antígeno potente para combater a hodierna ignorância humana, em especial, no ambiente escolar. Transgredir as fronteiras sexuais, raciais, etárias e de classe social, além de promover a diversidade cultural e a criação de espaços inclusivos, principalmente, na escola, são as ações que a autora propõe no livro “Ensinando a transgredir: A educação como prática da liberdade”. O foco é estabelecer profundas conexões com o universo das emoções e dos sentimentos do outro, mas não oprimir alguém somente por causa do tipo, cor, textura, comprimento e tamanho do cabelo, por exemplo. Possivelmente, as propostas de hooks seriam um alento para os avanços que ainda não conseguimos atingir em relação ao próximo. Vivemos na era da Inteligência Artificial, o que nos consagra, a priori, como exímios criadores de máquinas e programas de computadores, mas pecamos cada vez mais na elaboração de vínculos afetivos, carinhosos e duradouros. 

A considerar que o século XXI é relativamente novo, temos, portanto, mais de 80 anos para livrá-lo da alcunha de retrocesso civilizatório, tais como os que barram os estudantes das atividades escolares meramente devido ao seus fenótipos.  Mais do que reforçar as dinâmicas de poder envolvidas na imposição de políticas de vestuário pelas escolas com base na etnia, classe e cultura, talvez refletir sobre o fato de que “a espécie humana é a única que sabe que tem de morrer”, como afirmou Voltaire (1694-1778), historiador e filósofo iluminista francês, poderia ser um alento para relembrar que a vida é finita. No mais, seria primoroso entender que a diversidade humana é a base da ação e do discurso, uma vez que se fossemos todos iguais não seríamos capazes de nos compreendermos, nem os nossos antepassados, tampouco planejar ações futuras e prever as necessidades que estão por vir, como advoga Hanna Arendt (1906-1975), uma das filósofas mais influentes do século XX. Destarte, é exatamente a diversidade cultural, tão vilipendiada nos últimos tempos, que deveria ser nutrida como elemento absolutamente central para interceptar o declínio humano.

Afora essas oportunidades de salvar o século XXI com base em leituras e saberes, Nelson Mandela tem uma proposta didática simples e caseira que, em tese, está ao alcance de todos. Ensina o ganhador Prêmio Nobel da Paz de 1993 e pai da moderna nação sul-africana, onde é carinhosamente referido como Madiba: “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

“ Membro titular da Academia Taubateana de Letras, Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada pela PUC-SP e professor do programada de Linguística Aplicada da UNITAU. Ademais, é pós-doutorando em Filosofia da Linguagem pela PUC-SP e pela UNIFESP”

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

Francisco Estefogo
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