Opinião

Um prato com muita brasilidade

Helerson Balderramas fala sobre tradicional prato brasileiro

Helerson de Almeida Balderramas
05/05/19 às 11h00

A formação da culinária brasileira se consolida não somente pela influência das culturas indígena, portuguesa e africana, como também pela diversidade de ingredientes disponíveis nos riquíssimos biomas brasileiros e de outras culturas que por aqui aportaram. Hoje, vou explicar um pouco sobre as moquecas, um prato que reúne várias características da cultura alimentar brasileira.

O termo “moqueca” provém de uma técnica de cozimento dos povos indígenas, que utilizavam o fogo para secar e conservar carnes, peixes, crustáceos e frutos envoltos em folhas de bananeiras. Denominada “moquém”, o método consiste em secar as carnes lentamente a uma distância razoável das brasas e, assim, fixar e conservar o sabor. Os índios não utilizavam sal marinho e temperos, como os que conhecemos hoje, e sim a fumaça do moquém. Acredita-se que a moqueca venha daí, com uma grande contribuição dos cozidos portugueses.

A outra vertente, a mu’keka (caldeirada de peixe), que vem da língua africana kimbundu, falada no noroeste de Angola, é a mais aceita pelos estudiosos da história da alimentação, cujo modo de preparo trazido por escravos foi adaptado nos quilombos e acentua as pimentas e o azeite de dendê.

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Peixes

O prato pode ser elaborado com as diversas espécies de peixes, tanto de água doce como salgada. No litoral, o badejo, robalo, corvina, dourado, garoupa e namorado, ou também pode ser usado o camarão, as arraias, o cação e os mariscos. No interior, as ricas bacias hidrográficas oferecem o pintado ou surubim, dourado, bagre, traíra, pacu, tambaqui e outros.

Uma outra herança indígena que não podemos deixar de comentar são as panelas de barro utilizadas principalmente para fazer a moqueca.

Variações

A moqueca capixaba (ES), por exemplo, tem influência indígena e portuguesa. Já a moqueca baiana traz influência africana com o leite de coco e o azeite de dendê.

No Espírito Santo a moqueca capixaba é preparada sempre nas panelas de barro de goiabeiras, patrimônio imaterial desde 2002. Leva urucum para dar a cor avermelhada e coentro. É também acompanhada de pirão, outra preparação indígena feita com farinha de mandioca.

Já a concorrente baiana, não menos deliciosa, imortalizada na obra de Jorge Amado, leva a mão pesada de temperos, a doçura do leite de coco, o sabor do dendê, a ardência das pimentas de cheiro e o colorido dos pimentões, podendo ser de siri mole, como a de Dona Flor, ou de arraia, como a que foi a última refeição de Quincas Berro d`Água.

Recentemente, variações vegetarianas e veganas do prato substituem o peixe por ingredientes como carne de caju verde ou de jaca e banana-da-terra, ganhando novos adeptos.

A dica para preparar essa iguaria é elaborar primeiramente um caldo bem aromático contendo cebola, tomates, pimentões e acrescentar as postas de peixe nos últimos minutos do preparo.

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