De forma sorrateira, a seara moderna capitalista, na esteira da racionalidade e da lógica tecnológica mercantilista, impõe-nos pressões incessantes pelo sucesso, normalmente aferido em termos de acumulação de riqueza e bens, status social, beleza “afroditiana” e realização profissional. Esse imperativo é exacerbado pela onipresença das redes sociais, sempre elas, que funcionam como vitrines de uma vida idealizada e plenamente feliz, desprovida de qualquer falha ou dificuldades. Trata-se, na verdade, de uma fictícia narrativa do esplendor, meio pelo qual escondemos as inerentes mazelas da nossa trajetória, que todos nós, inevitavelmente, enfrentamos, mas, por vezes, temos receio que venham à baila. Parece que os enredos contemporâneos estão atravessados por meras aparências de ostentação, ocultadas por uma cortina de fumaça, ou seja, um estratagema para encobrir a pura realidade repleta de hercúleos desafios. Em miúdos, trata-se de uma cacofonia que a vida cotidiana da atualidade, às vezes, eclipsa, a bem da verdade, a falsa epifania de pleno e imparável triunfo.
O percurso da história da humanidade, marcada por inúmeras conquistas e revezes, é um dos temas centrais no terreno filosófico, que busca compreender a essência da nossa existência e a dinâmica da nossa ação no mundo. Ao longo dos séculos, pensadores e estudiosos têm refletido sobre as razões e as implicações desses eventos em nossas vidas, por intermédio de diversas perspectivas. Esse expediente pode iluminar nossa compreensão do que significa ser humano em um mundo repleto de constante e estratosféricas imposições de expectativas que são, por vezes, inalcançáveis.
Jean-Paul Sartre (1905-1980), por exemplo, filósofo francês e um dos principais expoentes do existencialismo, argumentava que a existência precede a essência, ou seja, que não nascemos com um propósito definido, mas que construímos nossas identidades por meio de nossas escolhas e ações. Nesse contexto, as derrotas e as vitórias são inevitáveis, já que são parte do processo de nos tornarmos quem somos. Sartre acreditava que, por estarmos "condenados a ser livres ", enfrentamos a angústia de nossas decisões, possivelmente resultando tanto em realizações quanto em frustrações. Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão, por outro lado, concebeu a proposição do eterno retorno, isto é, devemos viver nossas vidas de tal maneira que estaríamos dispostos a repeti-las infinitamente. Segundo o pensador do século XIX, os imanentes perrengues são momentos necessários de aprendizados e alargamentos, que, a rigor, podem possibilitar a superação de nossas limitações e alcançar uma versão ressignificada de nós mesmos. Ainda, o ferrenho crítico de "ideias modernas” valoriza a ideia do amor fati. Refere-se ao amor ao destino, que implica aceitar e até mesmo amar os desencantos como partes integrantes do nosso périplo existencial para o santo graal da hodiernidade, a saber, o famigerado apogeu.
No mais, Guy Debord (1931-1994), filósofo francês e diretor de cinema, no irretocável A Sociedade do Espetáculo, descreve como a existência dos dias de hoje se tornou uma série de imagens espetaculares, onde o ser é substituído pelo mero e superficial parecer. A coação para exibir protuberantes eminências e ininterruptos contentamentos cria dissonâncias entre a realidade vivida e as imagens projetadas, o que leva muitos de nós a sentimentos de inadequação, descolamento e rejeição. A busca incessante pelo corpo ideal e pela beleza, por exemplo, impulsionada pela mídia e pelas redes sociais, transforma a nossa estrutura física em uma relés mercadoria a ser moldada e exibida aqui e acolá, ação que pode nos alienar da nossa própria corporeidade.
Outrossim, Herbert Marcuse (1898-1979), filósofo alemão, postula em Eros e Civilização que a repressão das pulsões humanas em nome da produtividade e do êxito econômico produz uma sociedade unidimensional, onde a liberdade e a criatividade são sacrificadas. Marcuse sugere que as conquistas humanas podem ser alcançadas quando superamos as limitações impostas pela sociedade capitalista, altamente tecnológica e racionalmente lógica nos dias de hoje. É preciso que abracemos uma forma de existência que valorize o ser em vez do ter. Como ratifica o sociólogo, naturalizado norte-americano: “a racionalidade tecnológica revela o seu caráter político, ao se tornar o principal instrumento de controle social, criando um universo verdadeiramente totalitário no qual sociedade e natureza, corpo e mente são mantidos num estado de permanente mobilização para a defesa desse universo” . Em outras palavras, envolve a intermitente demanda para perpetuação da incessante perseguição pela opulência, sobretudo, material, subjugando-nos à sucessiva necessidade da conformidade e da produtividade dentro dos parâmetros definidos pela era em que vivemos, soberbamente saturada de fáceis e perecíveis recompensas.
Em uma época quando o capitalismo e as redes sociais intensificam as pressões pela prosperidade ad aeternum, é crucial refletirmos sobre a autenticidade de nossas aspirações e a natureza das nossas realizações. Legitimar os nossos deslizes como parte do processo de expansão e emancipação pode nos ajudar a construir uma vida mais autêntica, engajada, ajustada e relevante, ao desafiar as efêmeras coerções superficiais da modernidade pragmática mercantil. Pois, a cada dia, uma nova exigência surgirá dado o fato de que a toada capitalista impõe incessantes pressões por dividendos e produtividade, fenômeno que constantemente redefine o que é considerado sucesso. Por conseguinte, cria um ciclo vicioso de expectativas que, muitas vezes, somente priorizam o ganho imediato em detrimento da realização pessoal e do bem-estar genuíno e coletivo. De acordo com Nietzsche, ao afirmar que “o sucesso tem sido sempre um grande mentiroso” , as glórias podem ser ilusões sedutoras. No entanto, é na legitimidade dos malogros que podemos encontrar as orientações para a vivência original, potente e emancipatória, como ratifica Horácio (65-8 a.C.), filósofo, poeta lírico e satírico romano, quando aponta que “o fracasso descobre o gênio; o sucesso esconde-o”.
