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Em final de mandato, vereador Beto Araújo lamenta que não tenham reconhecido seu trabalho

“Aqui [em Três Lagoas] começou nascer protetor de Facebook, depois que eu cheguei; depois que eu matei a onça, foram pegar no rabo dela e tirar fotografia”, desabafa

Hojemais - João Maria Vicente
14/12/16 às 10h20
“Desde os meus primeiros dias na Câmara, cumpri com minhas obrigações como poucos vereadores cumpriram em cem anos” (João Maria Vicente)

A grande surpresa das eleições de 2012, o vereador Beto Araujo (PSD), eleito em cima da causa animal, nestas eleições teve uma votação decepcionante. Sequer bateu na trave. Agora vive seus últimos dias de parlamentar.

Tendo passado boa parte de seu mandato cuidando de animais indigentes, sai da vereança da mesma forma, ou pior, do que entrou. 

Recentemente teve que vender seu carro para pagar agiota e diz que acumulou uma dívida impagável. Na vaga reservada a ele no estacionamento da Câmara, agora encosta a bike com a qual tem se locomovido. Não sabe ainda o que vai fazer a partir do ano que vem. Disse que vai procurar emprego, mas tem também a opção de transferir-se para Campo Grande, a convite de uma amiga fundadora da primeira ONG em defesa da causa animal de MS. O certo é que continuará fazendo o trabalho que faz a 16 anos: levar para casa animais doentes ou acidentados.

MEA CULPA

Questionado sobre o que teria feito o eleitor mudar de ideia em relação a ele, Beto apresenta várias hipóteses. Uma delas é que o eleitor sul-mato-grossense não vota de forma consciente, mas por afinidade. “As pessoas votam no amigo de cachaça, no amigo da família, no que está na modinha na Internet falando que é o Rambo e que vai prender todo mundo, acabar com a corrupção”, dispara. Quem fala isso, ou quem mentir mais, segundo ele, tem amplas possibilidades de ser eleito.

O defensor dos animais acredita também que certos comportamentos seu pode ter contribuído para criar inimizades como, por exemplo, o fato de indicar a quem o procura, veterinários que são bons (que não são do município, por não acreditar nos daqui). “Então era muita gente falando mal de mim”, argumenta. Acredita também que por ter sido oposição à administração municipal - não caindo na graça da prefeita –, toda a máquina pública ficou contra ele, mentindo e falando mal.

A falta de recursos também foi capital para o seu fracasso nas urnas, diz o vereador. “Como que você ganha uma campanha, se o partido não me deu um real?”, questiona, esclarecendo que às vezes fica sem dinheiro até mesmo para comer. “Eu não tinha gasolina no carro para levar santinho para as pessoas que queriam votar em mim; e nem crédito no celular”, acrescenta.

Bem diferente de 2012, quando tinha cavaletes com sua propaganda eleitoral espalhados pelos quatro cantos da cidade, esta campanha, segundo Beto, se limitou à distribuição de alguns panfletos falando que tinha conseguido acabar com o crime de assassinato de quatro mil animais por quatro anos em Três Lagoas, o que levou, pela primeira vez, uma prefeitura a ser condenada no Brasil por esse tipo de crime.

Declarando-se não ser político profissional, diz que a explicação para a reeleição ser tão difícil, é o grande número de invejosos que querem o seu lugar na Câmara.

“Desde os primeiros dias na Câmara eu cumpri com minhas obrigações como poucos vereadores cumpriram em cem anos”, vangloria-se, relatando que dos 17 vereadores, apenas dois votavam em favor do povo e da cidade em todas as sessões: ele e o Jorge Martinho. “Eu achava que o povo sabia disso, mas muitos poucos se interessaram por isso”, lamenta, destacando entre os seus trabalhos, a realização de três audiências públicas, curso para professores de educação ambiental e um seminário considerado do mais alto nível do país, “trazendo pessoas importantes para derramar conhecimento aqui e não adiantou nada”, lamenta.

INGRATIDÃO

Questionado se os defensores da causa animal não entenderam o seu trabalho, ele responde que, ou eles não entenderam, ou seu trabalho não chegou até eles ou então votaram de acordo com os seus próprios interesses. Beto diz que tem apoio de protetores [de animais] do Brasil inteiro, mas que um grupo formado em Três Lagoas não o apóia, mesmo diante de tudo que fez. “Se juntar todas elas [As Protetoras} , não fizeram o que eu fiz e nunca vão fazer, porque não tem capacidade para isso e porque querem o meu lugar aqui [na Câmara]”, critica.

Ele reclama ainda que eles - os protetores - queriam que ele construísse hospital, que recolhesse cinco mil gatos na rua e que todos os dias iam à Câmara para que ele fosse buscar gatas paridas em suas casas. “Eu não tenho essa obrigação e eles acham que eu fui eleito para isso, para resolver os problemas deles”, revolta-se.

Afirmando que ninguém em Mato Grosso do Sul tirou tantos animais doentes e atropelados das ruas como ele, Beto orgulha-se de não colocar os animais em lar improvisado, mas de levá-los para sua casa. “Eu não durmo a noite inteira há 16 anos, e eu que pago a conta dos animais que pego; eu não pego dinheiro da sociedade, porque ai é muito fácil: você pega uma animal doente, põe na casa dos outros e pega dinheiros dos outros para pagar”, alfineta.

Nessa trajetória, diz ter tirado mais de 500 animais das ruas e gastou mais de 300 mil reais com isso. “Aqui [em Três Lagoas] começou nascer protetor de Facebook, depois que eu cheguei; depois que eu matei a onça, foram pegar no rabo dela e tirar fotografia”, ironiza. “Nunca denunciaram o CCZ pela matança de quatro mil animais por ano”, completa.

Acabou se prejudicando com tantas contas que fez e hoje não consegue pagar. Mesmo tendo um salário bom – R$ 10 mil – durante quatro anos, revela que não comprou uma cama, uma geladeira e nenhuma cadeira para sua casa e que está com uma dívida que nunca teve em sua vida. “pagando o que a prefeita tinha que pagar”, revolta-se.

FUTURO

Mesmo sem mandato, afirma que vai continuar defendendo a causa animal e continuar pegando animais na rua, o que fazia 12 anos antes de ser eleito e que, para tanto, tem alguns parceiros, como os promotores de Justiça Fernando Lanza, Ana Cristina Carneiro Dias e que agora busca o apoio do MPF, na discussão de projetos que não foram implantados.

Para sobrevir, ainda não sabe o que vai fazer, mas que deverá procurar emprego em algum lugar. Após a eleição, diz ter recebido ligação de Campo Grande, por parte da fundadora da primeira ONG da causa animal do Estado pedindo para mudar-se para a Capital, uma vez que não teve o respeito dos três-lagoenses.  “Ela disse: eu quero que você venha ontem; saia desta cidade onde você não teve reconhecimento que merece, vem embora que nós precisamos de você”, conta. Ele disse que vai à Capital conversar com ele, mas que gostaria de continuar em sua cidade, onde nasceu e que vai lutar para isso.

Por fim, argumenta que “aqui [em Três Lagoas] não tem ninguém que tem conhecimento sobre a causa animal, só tem oportunistas, pilantras falando que vai defender a causa animal para ter voto”.

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Vereador com um dos muitos animais que cuidou em seu gabinete (João Maria Vicente)
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