Opinião

A igreja do Diabo

"Como sempre, Machado (de Assis) deixa nesse Conto suas pitadas de ironia e humor fino"

Adelmo Pinho
01/02/24 às 08h58

Machado de Assis é considerado na literatura brasileira o mestre dos escritores. Obras suas, como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e O Alienista são inigualáveis. Quem lê Dom Casmurro, lembra de Capitu e do enigma sobre sua suposta traição a Bentinho; quem lê Memórias Póstumas de Brás Cubas, coloca-se no lugar do defunto narrador em suas reminiscências; quem degustou O Alienista, percebe que temos um pouco do perfil do personagem protagonista, Simão Bacamarte, o psiquiatra (de louco todo mundo tem um pouco).

Mário de Andrade, escritor e principal figura do Movimento Modernista no Brasil, autor de obras como Paulicéia Desvairada (poemas sobre São Paulo) e Macunaíma (gênero cômico, que fala de um herói sem caráter, preguiçoso e covarde) faz crítica literária a escritores renomados, na obra Aspectos Da Literatura Brasileira.

Como crítico, Mário de Andrade certamente não pouparia Machado de Assis, a quem chama de “mestre”. Nesse livro, ao mesmo tempo em que Mário de Andrade denomina Machado um gênio e enaltece suas obras, afirma que: “... Machado de Assis não profetizou nada, não combateu nada, não ultrapassou nenhum limite infecundo. Viveu moral e espiritualmente escanchado na burguesice de seu funcionarismo garantido e muito honesto, afastando de si os perigos visíveis”. Em seguida, Mário, pondera e “compensa”: “Mas as obras valem mais que os homens ...”.

Machado de Assis foi “o acadêmico” dos acadêmicos e um escritor perfeccionista. Obra de menos renome de Machado, mas, muito interessante, é o Conto A Igreja do Diabo. Como sempre, Machado deixa nesse Conto suas pitadas de ironia e humor fino. Nele o “Bruxo do Cosme Velho” (alcunha de Machado) criou a história do Diabo que teve a ideia de fundar uma igreja, porque se sentia humilhado perante Deus, por não ter o seu próprio templo: o Diabo quis institucionalizar o seu reinado do mal.

Metaforicamente, no Conto, o Diabo propôs a Deus durante um diálogo, que formaria e atrairia pessoas para a sua “igreja” por “franjas de algodão” (pessoas pecadoras) e através delas viriam (ele puxaria) as de “seda pura” (pessoas com virtudes, que iriam escolher o caminho do pecado).

Deus não se opôs à ideia do Diabo e este foi à terra para convocar fiéis e anunciar a sua “boa nova” aos homens, pregando que a inveja, a gula, a luxúria, a ira, a avareza, a soberba e a preguiça foram reabilitadas e as pessoas tinham liberdade em praticá-las. Outros lemas da doutrina do Diabo na sua “igreja” era romper com o sentimento humano de solidariedade e de amor ao próximo.

O Diabo, assim, fundou sua igreja na terra sob essas premissas, com a permissão de Deus. A igreja do Diabo prosperou e ficou conhecida mundo afora. Um dia, porém, o ser das trevas notou que muitos dos fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes, como dar esmolas a pobres, arrepender-se de práticas erradas; gulosos passaram a fazer regime, mentirosos a falar a verdade ...

O Diabo ficou inconformado com a atitude dos humanos e voou de novo ao céu, para questionar Deus sobre a “subversão” da humanidade à sua doutrina. Deus, ao final, ouviu o Diabo com infinita complacência e sem o repreender, explicou: - Que queres tu, meu pobre Diabo? As “capas de algodão” (pessoas com pecados) têm agora “franjas de seda” (virtudes). É a eterna contradição humana. Enfim, um Conto de excelência, que merece ser lido em sua totalidade. 

Foto: Reprodução

*Adelmo Pinho é articulista, cronista e membro da Academia de Letras de Penápolis

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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