Opinião

"Ainda estou aqui": A presença da ausência?

No enigmático O Mito de Sísifo, Camus descreve a insensatez da existência como o conflito do No enigmático O Mito de Sísifo, Camus descreve a insensatez da existência como o conflito do ser humano que busca algum sentido para viver em um mundo paradoxalmente inerte.

Francisco Estefogo
18/12/24 às 20h00

Ainda Estou Aqui, filme nacional magistralmente dirigido por Walter Salles, baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, e com a chancela da impecável atuação de Fernanda Torres no papel de Eunice Paiva, já indicada ao Globo de Outro como melhor atriz, retrata de forma arrebatadora, dentre outras mazelas do período de chumbo da ditadura brasileira no final dos anos 60, a repentina falta de um ente amado e, por conseguinte, da presença da ausência e do decorrente fustigante abissal vazio familiar. Mais especificamente, o longa, que já arrecadou mais de 53 milhões de reais em terras tupiniquins, e com robustas chances de amealhar algumas estatuetas do Oscar 25, narra a história dramática de Eunice Paiva, dilacerada pelo desaparecimento inesperado do marido, Rubens Paiva, interpretado por Selton Mello, igualmente um dos favoritos à cobiçada estatueta na categoria de melhor ator coadjuvante. Ao abordar o vazio existencial e as emoções intensas que surgem em meio à dor derivada das rupturas, principalmente, em relação às pessoas que amamos, a película, que é atravessada pelas idiossincrasias de uma típica família carioca de classe média alta para época, viceja reflexões fundamentais sobre a condição humana e a potência da presença, mesmo que não seja mais fisicamente materializada, dos que nos rodeiam em prol da luta por justiça e liberdade.

O “vazio” abordado na trama, de alguma forma, se relaciona ao pensamento de Albert Camus (1913-1960), filósofo franco-argelino, no que diz respeito ao absurdo como a incongruência entre o desejo humano de buscar significados para tudo, frente a indiferença do universo. No enigmático O Mito de Sísifo , Camus descreve a insensatez da existência como o conflito do ser humano que busca algum sentido para viver em um mundo paradoxalmente inerte. Essa súbita lacuna, que surge após uma perda inesperada, como o primoroso Ainda estou aqui ilustra, pode ser reconhecida como uma expressão desse despropósito existencial: a falta de sentido clara para certos episódios mundanos como, por exemplo, a tempestuosa ausência desafia nossa busca por explicações, périplo de Eunice Paiva e os filhos. Por outro lado, Simone de Beauvoir (1908-1986), filósofa francesa, a partir da análise da liberdade e da contingência, sugere que o ser humano é jogado num mundo onde as coisas simplesmente acontecem. Ao não buscar uma justificativa transcendente para o sofrimento, Beauvoir aponta para a responsabilidade sobre a própria existência. A falta abruta, segundo a ativista política, não é apenas uma ausência de sentido, mas um chamado para a criação de significados próprios baseados na elaboração de uma inédita presença como potência de resistir e seguir adiante.

No mais, Frantz Fanon (1925-1961), filósofo político natural das Antilhas francesas, aborda o vazio existencial em contextos marcados pela opressão e pela marginalização, fenômeno que amplia esse conceito niilista para além do existencialismo clássico. De acordo com Fanon, o sentimento de inanição e alienação é intensificado pelas experiências da desumanização racial. No icônico e atemporal livro Pele Negra, Máscaras Brancas , o psiquiatra e crítico do nacionalismo descreve a experiência de negação da identidade e a tentativa de se enquadrar em moldes dogmáticos impostos pela sociedade colonizadora. Esse tipo de vácuo nasce da impossibilidade de existir plenamente como um “eu” livre das pressões sociais autoritárias, ou seja, a presença da ausência do “eu” sui generis.

Ademais, Bell hooks (1952-2021), ativista antirracista estadunidense, por sua vez, na irretocável obra Ensinando a Transgredir , esmiuça como a opressão racial e de gênero pode suscitar sensações de desamparo que são vivenciadas em termos psicológicos e espirituais. hooks entende esse espectro desértico não como um estado de resignação, mas como uma oportunidade de resistência. Nos termos da professora e teórica feminista de Kentucky, essa experiência de perda e de nulidade pode ser a gênese de uma nova subjetividade, característica imanente da nossa própria agência de reconstrução e subversão como seres humanos.

Outro filósofo relevante para entender a ressonância da abrupta presença da ausência é Martin Heidegger (1889-1976), filósofo alemão. No hermético Ser e Tempo , Heidegger apura a noção de “ser-para-a-morte” e de como a consciência da própria finitude nos leva a confrontar o nada. Essa perspectiva possibilita a compreensão de como o hiato sentido após uma perda, como enfrentado por Eunice Paiva e os 5 rebentos, é, em parte, um confronto com a privação e a fragilidade da existência humana.  O escritor, professor e reitor universitário concebe as angústias existenciais como experiências fulcrais para nos reconectarmos com nosso ser autêntico, ainda que isso ocorra em um estado de solidão e esfacelamento, como vivido pelos Paiva. Num dado momento do filme, por exemplo, a despeito da amargura e do calvário, a dilacerante saudade do marido e do pai Rubens é, a mando de Eunice, contraposta pela família Paiva com um largo sorriso coletivo, ao posarem para uma foto como marca da presença e resistência de Rubens Paiva, ainda que não estivesse mais fisicamente entre eles.

Se o vazio repentino é uma espécie de ruptura, esse sentimento da carência pode similarmente ser entendido como uma oportunidade para a criação. Angela Davis, filósofa socialista estadunidense, bem como Audre Lorde, filósofa, poeta e ativista feminista do Harlem, Nova York, exploram como a vivência do nada e da marginalização pode ser a largada para a criatividade e para a autoexpressão. Lorde, no provocativo Sister Outsider, aponta o ato de escrever e de produzir como formas de potencializar a presença, além de canalizar a dor e de transgredir as estruturas de opressão. Foi o que, de algum modo, Marcelo Rubens Paiva fez, ao contar a história da sua família no seminal livro do roteiro do filme, por meio das narrativas de lutas, sobrevivência e resistência, sensibilizado e inspirado pela drástica desaparição do seu pai Rubens Paiva, deputado federal por São Paulo em 1962, pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). 

A lacuna imprevista deixada pelo sumiço de Rubens Paiva, como escancarada em Ainda Estou Aqui , encontra paralelos em diversas tradições filosóficas que veem o vazio não apenas como uma falha ou a presença da ausência, mas como uma possível contingência inerente à existência humana. A supressão, portanto, pode ser o ponto de partida para o erigir de novos processos de desenvolvimento da consciência baseados na elaboração de impensadas presenças, sejam elas existenciais, espirituais, sociais, culturais ou políticas. Trata-se de searas reflexivas onde confrontamos nossas limitações e onde, contraditoriamente, podemos encontrar resistência e liberdade para reconstruir a nossa própria presença, com o apoio dos que nos cercam, como fez Eunice Paiva, interpretada no final da fita pela estupenda, silenciosa e significativa participação de Fernanda Montenegro. 

Assentada no martírio do marido desaparecido, no seu percurso acadêmico e nos princípios de independência e autonomia, além do apoio de amigos e do amor pelos filhos, a advogada Eunice Paiva, de descendência italiana, que se engajou em lutas sociais e políticas, sobretudo, indigenistas, muda sua vida completamente para batalhar pelos direitos humanos no país. Nessa toada, a reflexão de Carolina Maria de Jesus (1914-1977), escritora, compositora e poetisa brasileira, ou seja, " quem passou fome na infância sabe o valor do pão e a necessidade de lutar para que todos o tenham” , pode propiciar uma vaguíssima ideia da presença da ausência do pai, marido e deputado federal Rubens Paiva. Como defensor das reformas relacionadas a modos livres de ser, pensar, desejar e viver, imanências do ser humano, Rubens ainda está sim por aqui, como tantos outros dizimados pela ditadura, presentes em cada movimento de liberdade vivenciado na contemporaneidade brasileira. 

Membro da Academia Taubateana de Letras, Francisco Estefogo é docente da Universidade de Taubaté e da FATEC-Taubaté. Também é pós-doutorando em Filosofia da Linguagem pela UNIFESP e PUCSP.

* *Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

Francisco Estefogo
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