A chuva cai sobre os telhados como um bálsamo. Depois de forte ventania, que veio derrubando coisas e descabelando gente, agora ela cai tranquila. A ventania quebrou a bacia da minha mãe de 86 anos. Não foi bem isso. Teve ventania, falta de energia. Ela caiu e teve uma fratura no quadril. Quedas são sempre complicadas, ainda mais em pessoas com idade avançada.
Minha mãe não parece ter 86 anos. Extremamente ativa. Até bem pouco tempo era empresária. Continua reinando no lar. De repente, se vê totalmente dependente. Sou filho assumidamente mimado. E da comida na mesa e roupinha limpa no guarda-roupa, passei a ter que me adaptar (rapidamente) à nova realidade. Confesso que tem sido difícil para mim também.
Para além de um pequeno (?) drama pessoal, quero chamar atenção sobre o envelhecimento populacional. No Brasil, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população com mais de 65 anos chegará em 2060 a 25% das pessoas (hoje está em torno de 10%). Isso significa que 1 em cada 4 brasileiros será idoso. Pior: a faixa dos mais jovens irá cair de 69,4% para 59,8%.
Se a sociedade como um todo não planejar o futuro próximo, muitos sofrerão as consequências. Teremos cada vez menos pessoas jovens para cuidar dos idosos. Seja porque estarão em número menor, ou em razão de não terem tempo para isso com a vida agitada e cheia de compromissos. Pagar cuidadores é uma opção, mas e as famílias que não tiverem condições de pagar?
Antes os filhos eram investimento garantido para ter alguém que cuidaria de você na velhice. Toda família também tinha alguém que podia fazer companhia à avó ou tia. Hoje os filhos têm dois empregos. Criança e adolescente também têm seus compromissos. As relações são líquidas e a empatia é rara (não me excluo, disso, ok?).
Temos ainda as questões relacionadas aos direitos dos idosos. As políticas públicas de assistência, por exemplo, precisam ser revistas para assegurar o cuidado a essas pessoas, principalmente no âmbito da saúde. Precisamos pensar também em maneiras de prevenir doenças e promover a qualidade de vida.
Existe todo um mercado de produtos e serviços que acorda lentamente para as necessidades deste público, mas precisa acelerar e diversificar rapidamente a oferta de soluções para idosos e seus familiares ou cuidadores.
Um vento fresco e suave sopra em meu rosto. É preciso agir.