Nos dias de hoje, vivemos idiossincrasias muito complexas e peculiares, quando não contraditórias, principalmente, em terras tupiniquins. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), por exemplo, recentemente publicou um relatório sobre o índice de analfabetismo no Brasil. Segundo o documento, a taxa de indivíduos iletrados de 15 anos ou mais caiu de 6,1% em 2019 para 5,6% em 2022, avanço que significa uma diminuição de mais de 490 mil analfabetos no país, a menor taxa desde o início da série histórica em 2016. Na contramão, os índices nacionais de violência parece terem mudado de forma anódina. De acordo com o levantamento periódico realizado pelo Monitor da Violência, Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o número de assassinatos no Brasil caiu 4% em 2023 na comparação com 2022. O estudo contabiliza as vítimas de homicídios intencionais (incluindo feminicídios), roubos seguidos de morte (latrocínios) e lesões corporais que resultaram em óbitos. No entanto, as mortes causadas por ações policiais não são incluídas na pesquisa. Ou seja, há mais malvadeza por aí, pois parece haver muitos casos de crimes fora das estatísticas do referido instituto. Ademais, episódios de racismo, misoginia, pedofilia, LGBTQIAPN+fobia, etarismo, gerontofobia, assédio sexual, intolerância religiosa, aporofobia, dentre outras atitudes tão criminosas e violentas como os vilipêndios acima citados, não compõem esses dados.
Decerto, as particularidades e os desafios da criminalidade não estão, a princípio, diretamente relacionados com as métricas da educação. Também não são tão simples assim. Até porque, de tempos em tempos, os Estados Unidos, com referências educacionais muito mais pujantes que as nossas, estarrece-nos com notícias de chacinas, especialmente, na ambiência escolar. Contudo, a julgar que a escola, a rigor, poderia formar indivíduos mais idôneos, éticos e menos miseráveis, talvez, os registros brasileiros em relação à violência poderiam ser mais palatáveis. Assim, a depender da perspectiva, frente aos indicadores apresentados, é patente afirmar que ainda estamos formando muita gente malvada.
No avesso desse descalabro de brutalidade, as artes, por serem irremediavelmente atravessadas por linguagens que aguçam o nosso imaginário, o que, de uma certa forma, é um enorme potencial indutor para iniciativas que robustecem a capacidade de pensar criticamente, muitas vezes, presenteiam-nos com produções que nos fazem refletir acerca das nossas limitações de, no mundo real, produzir algo semelhante. Posto que no universo fantasioso das artes tudo é possível, esse ambiente de ‘faz-de-contas’, como o brincar e o imaginar, pode ser um fecundo instrumento para vivermos com mais leveza, repertórios e respeito ao encarar a espinhosa realidade. Meu Malvado Favorito 4, a título de exemplo, filme de grande apelo emocional em cartaz, com os fofíssimos e divertidos Minions, que encantam a todos, poderia ser um paradigma profícuo para nos ensinar a formar malvados ‘favoritos’ como o Gru. De aspirante à bandidagem, que planeja se tornar o maior vilão do mundo, o pseudo ‘fora da lei’ descobre o valor do amor e da família. Consequentemente, muda o seu périplo de bandidagem para a paternidade amorosa. Retratada desde o primeiro longa da franquia, em 2010, a trajetória de se formar como um malfeitor, razão que inclusive levou Gru a uma escola de bandidos, descamba para atitudes de carinho e ternura, ao adotar três órfãs, as graciosas Margo, Edith e Agnes, além de desenvolver sentimentos por Lucy Wilde, sua cúmplice, à primeira vista, de vilanias. Na mais recente versão, a família ganha mais um integrante: Gru Jr, o encantador rebento, fruto do enlace entre Gru e Lucy.
Sobreleva ressaltar que, muito distante dos padrões de beleza impostos pela sociedade contemporânea, Gru, de meia idade, estrambelhado e desajeitado, com um nariz proeminente, constitui uma família pautada na compaixão, no cuidado e no amor pelos entes queridos. Diferentemente do formato do padrão de família ideal que se apregoa por aí, meramente difundido para fins ideológicos partidários, Malvado Favorito 4, mesmo se tratando de uma fantasia, particularmente, voltada para o público infantil, ilustra que o núcleo familiar não é necessariamente composto por um pai, uma mãe, uma filha e um filho, além de um possível cachorro, aqueles das famigeradas propagandas de margarinas. Há inúmeros formatos de família que podem conviver com muito afeto e amabilidade.
Nesse esteio, do ponto de vista filosófico, os existencialistas, como Jean-Paul Sartre (1905-1980) e Albert Camus (1913-1960), poderiam entender o percurso de Gru como uma busca de autenticidade e significado. Preliminarmente, Gru começa sua saga como um supervilão, seguindo uma rota predefinida por suas ambições trapaceiras e pelo que a sociedade espera de um malfeitor. No entanto, ao acolher as três órfãs e desenvolver vínculos afetivos com elas, Gru encontra um novo propósito na vida. Ele escolhe conscientemente mudar sua trilha, uma vez que rejeita seu antigo papel e cria novos sentidos de existência por meio do amor pela família, sobretudo, decorrente da função paterna. Essa transformação poderia ser compreendida como uma realização da liberdade existencial, já que, de alguma forma, Gru recusa, com base na sua responsabilidade individual, os padrões dogmáticos de ser, pensar e existir conforme a sociedade impõe no que se refere a um criminoso.
Ademais, Kant (1724-1804), filósofo alemão, com sua ênfase no dever e nos preceitos universais, poderia interpretar a mudança de Gru como uma transição de ações movidas por interesse próprio (vilania) para ações motivadas por dever e preocupação com os outros, principalmente, quando começar a cuidar das crianças órfãs e passa a combater o mal. No mais, pautado na sua icônica máxima “o equilíbrio é a sabedoria”, Aristóteles (384-322 a.C.), filósofo grego, por outro lado, poderia conceber a jornada de Gru como um movimento em direção à virtude e ao desenvolvimento do caráter, já que o ‘malvado favorito’ encontra o equilíbrio entre os extremos e, por conseguinte, torna-se uma pessoa mais justa, relacionável, ética e equilibrada.
Para explorar as complexidades, as peculiaridades e as contraditoriedades dessa caixa de ressonância dos humores globais, ou seja, a modernidade, a evolução da narrativa da envolvente película, o desenvolvimento dos cativantes personagens, em especial, das bizarrices dos Minions, bem como o uso do humor e da animação poderiam ser analisados em termos de como a arte pode refletir e influenciar nossa compreensão da condição humana e dos valores sociais, tão vilipendiados ultimamente. É precisamente nesse contexto que a escola e a família, em tese, instituições formadoras, poderiam assumir papeis prolíficos fundamentais na construção de uma ética sólida e inclusiva.
A despeito das herméticas particularidades e dos labirintos dos atos criminosos, ao proporcionar ambientes onde os indivíduos possam vivenciar experiências relacionadas ao amor, à ternura, à coletividade e à ética, os lares e os contextos escolares poderiam se tornar microcosmos de espaços mais seguros, justos e inclusivos. Dessa forma, as sociedades, a priori, poderiam deixar de formar marginais e, de algum modo, constituir sujeitos capazes de refletir criticamente sobre a realidade ao seu redor e agir com integridade, carinho e responsabilidade para com o outro.
Nesse terreno, Gru nos brinda com o fato de que, embora suas intenções iniciais estivessem mascaradas por aspectos egoístas e vilanescos, a partir, por exemplo, da amorosidade, da dedicação e do carinho à família, constituída ao seu próprio gosto e entendimento, temos na nossa essência como humanos o potencial para o bem e para a humanização. Haja vista que o fake malvado, apesar de estar à sombra ilusionista da sétima arte e tenha sido formado no liceu da bandidagem, revela-se um potente propagador do amor, ao identificar, sentir e compartilhar carinho, ternura e a benquerença do próximo.
