Na complexa teia das linguagens que permeiam a contemporaneidade, não apenas percebemos, mas também construímos significados. Nossa compreensão da realidade é forjada pelas narrativas culturais, históricas e sociais que criamos e transmitimos. Assim, assumimos o papel de artífices de nossa própria percepção, moldando não apenas o que vemos e sentimos, mas como interpretamos e interagimos com o mundo ao nosso redor. Portanto, as linguagens são absolutamente centrais para o nosso viver e, sobretudo, autoconhecimento no que diz respeito às nossas emoções.
Especificamente na hodiernidade, devido aos multifacetados tipos de linguagens, quer sonoras, verbais e não verbais, as nossas emoções são impactadas em vários sentidos, acima de tudo por conta da indefectível e cotidiana seara tecnológica, amplamente repleta de estímulos estéticos. Em consequência, a nossa relação com o universo dos dias atuais pode nos ensinar muito no que se refere às nossas emoções e ao nosso eu particular. Nesse esteio, por não terem uma normativa como o sistema linguístico das línguas, as linguagens das artes podem ser caminhos para o despertar de emoções nunca vividas. Músicas, quadros, poesias, peças de teatro, livros, filmes, danças, esculturas, fotografia, performance, arquitetura, dentre outras inúmeras expressões estéticas, são manifestações artísticas que podem nos transportar para além da realidade.
Nesse terreno, ao longo dos séculos, a filosofia ocidental tem explorado a natureza das emoções e da existência da totalidade humana por meio de diversas concepções. Dilthey (1833-1911), por exemplo, filósofo do século XIX, enfocou a importância das emoções na constituição da experiência humana, o que oportunizou o questionamento da psicologia naturalista, uma vez que as ciências humanas se diferenciam fundamentalmente das naturais. Mais particularmente, o pensador alemão alvitrou uma perspectiva distinta da cartesiana ao explorar a vida humana. Pela sua ótica, a vida não poderia ser compreendida meramente mediante à razão, mas também a partir das emoções das experiências vividas. Seu argumento se pautava na compreensão da existência humana como um processo essencialmente empático, no qual o intérprete, como num movimento de terceirização, tenta vivenciar o mundo interno do outro. Assim, as proposições diltheyianas entendiam as emoções como fundamentais para a constituição da experiência humana, ao influenciar o meio pelo qual percebemos e interpretamos o mundo. Ao contrário de Descartes (1596-1650), filósofo, físico e matemático francês que concebia a mente racional como separada do corpo, Dilthey considerava o corpo e a mente como uma unidade entrelaçada, onde as emoções desempenham funções fulcrais. Apreende-se, assim, que, além de serem os veículos pelos quais expressamos e compartilhamos nossas intenções, desejos e experiências emocionais, as linguagens facultam a construção da compreensão intersubjetiva do mundo, pois o pensamento elaborado visual e abstratamente valida a conexão emocional com o nosso entorno.
Destarte, as linguagens das artes, por exemplo, são artefatos de comunicação tão essenciais como as linguagens oriundas da diária produção oral e escrita, em razão de serem condutores para expressar e aguçar novas emoções e sentimentos, uma vez que as artes não estão encarceradas a regulamentações, como acontece com a ordenação linguística de qualquer língua, com suas regras e a estabilidade dos gêneros textuais. Por serem livres de padrões estruturais, as artes fomentam emoções e sentimentos que a língua em si, qualquer que seja ela, a princípio, não permite. Como ratifica Georgia O'Keeffe (1887-1986), pintora estadunidense, acerca do vigor das cores e das formas em sua arte como um meio de expressão potencializador, qualificado para comunicar emoções e significados profundos que vão além das palavras: "Eu encontrei que eu poderia dizer coisas com cores e formas que eu não podia dizer de nenhuma outra maneira — coisas para as quais eu não tinha palavras."
Em outras palavras, as linguagens das artes podem, de algum modo, revelar outras estruturas da experiência humana sui generis, capturando tanto a subjetividade quanto a intersubjetividade das nossas vivências. A soma completa dos nossos percursos, com destaque para as emoções, as relações e os eventos, aspectos constituintes da existência humana, é engendrada por uma rede complexa de experiências que são concomitantemente individuais e coletivas, sempre mediadas por contextos sócio-históricos-culturais. Para citar alguns casos dessa singularidade humana, Leonardo da Vinci (1452-1519), uma das figuras mais importantes do Renascimento e conhecido por seu uso magistral do “sfumato” e do “chiaroscuro” , desenvolveu uma técnica que envolve transições suaves entre cores e tons, criando profundidade e realismo. Ademais, Van Gogh (1853-1890), pintor pós-impressionista neerlandês, caracterizado por pinceladas vigorosas e cores vibrantes, definiu sua linguagem artística por meio de uma abordagem expressiva, intensa e emocional. Já Frida Kahlo (1907-1954), pintora mexicana, com base em elementos autobiográficos e simbolismo pessoal, explorou temas de identidade, dor e cultura mexicana. No mais, pioneiro do cubismo, Pablo Picasso (1881-1973), pintor e escultor espanhol, revolucionou a linguagem da arte ao fragmentar estilos e, ao mesmo tempo, representar múltiplas perspectivas. Outrossim, Banksy, artista contemporâneo britânico, cuja identidade tem sido alvo de especulações há décadas, com suas obras de “street art” , conjuga humor e crítica social, ao abordar temas hodiernos de talhe acessível e provocativo.
Desse modo, as artes são íntimos constructos sensíveis à temporalidade e à contextualidade das vivências singulares de cada um de nós. Envolvem a criação de obras visuais, auditivas ou performáticas, que transmitem ideias, emoções, conceitos ou uma perspectiva estética distinta de um determinado fenômeno. À vista disso, as linguagens artísticas desempenham um papel primordial na nossa vida, pois é por intermédio delas que os significados que cada um de nós construímos, de maneira peculiar, podem ser expressos e compartilhados. Logo, para além das línguas, os diferentes e autônomos formatos de linguagens das artes, por serem desvinculados de paradigmas postos, são também constituintes da nossa existência e, por conseguinte, são medulares para que, de alguma maneira, a totalidade humana possa ser estudada e compreendida de um jeito mais pleno. Como assevera Milton Glaser (1929-2020), designer gráfico norte-americano, “você nunca será o mesmo depois de vivenciar a arte”. Em outros termos, mais que viabilizar emoções jamais desfrutadas, as artes podem nos propiciar momentos de autodescoberta de um novo eu, único, ímpar e imprescindível, como cada um de nós somos neste planeta de quase 8 bilhões de vidas humanas.
