Opinião

Porque Jesus veio ao mundo?

"... o que muitos ainda não entenderam é que, Jesus propôs e fez com o Pai uma aliança e NÃO celebrou um contrato (com cláusulas abusivas), o qual jamais conseguiríamos cumprir"

José Márcio Matello
24/12/23 às 12h04

Dificilmente alguém faz essa pergunta: Por que Jesus nasceu? Por que o seu nascimento é histórico e celebrado ao longo de dois milênios?

Com certeza, há razões muito mais profundas e implicações que nossa imaginação não chega às suas margens. Porém, quero expor aqui, algumas que creio serem algumas delas:

1. PARA QUEBRAR E SUPERAR A LÓGICA DA RELIGIÃO, NÃO CRIAR OUTRA

Ao contrário do que a maioria acredita, Jesus não veio criar, inaugurar uma nova religião (nem mesmo o cristianismo). O próprio conceito de religião, é oposto àquilo que Jesus veio pregar e deixar de legado neste mundo.

Religião é um conjunto de ritos e crenças relativos a seres superiores e anteriores, com os quais os fiéis (devotos) desenvolvem uma série de obrigações em troca de benefícios.

Toda religião se baseia na lógica da "causa e efeito". Toda religião está embasada no medo de uma divindade, a qual precisa ser constantemente atendida em seus caprichos. Também, outro pilar que sustenta toda e qualquer religião, é a barganha (seja para não receber o castigo, seja para receber um “presentinho”).

O próprio Judaísmo vétero-testamentário propagou isso bastante (leis, regras, difusão do medo, sacrifícios, etc).

O catolicismo medieval e conservador também replicou essa prática através do pagamento de
promessas, das indulgências, etc.

As religiões de origem afro, também contribuíram para propagar essa barganha religiosa
(Oferendas/despachos em troca de proteção, de conquistas, etc).

Hoje o evangelicalismo brasileiro (os denominados evangélicos) tem resgatado essa idéia de
obrigações em troca de benefícios. Sacrifícios de todos os tipos, para todos os gostos (aliás a
imaginação é extremamente fértil nesse campo) em troca de bênçãos.

Ainda é muito forte entre nós essa idéia de que “sacrifícios” servem para aplacar a ira de Deus e
conseguir o seu favor.

Isso é a mais antiga prática humana, a tentativa de manipular o sagrado a trabalhar para nós, para nossos interesses. Muito parecido com o filho que sabe muito bem como dobrar o pai para conseguir o que quer.

Mas, o advento de Jesus veio para esvaziar esse conceito, para superar todo esse sofisma de que, Deus é um ser carente, que precisa ser adulado e, assim, receberemos nosso prêmio por bom comportamento; ou pior, encara-se Deus como um ser carrancudo, constantemente de mau humor e que, para ter sua ira aplacada, precisamos “agradá-Lo” com nossas intermináveis penitências e sacrifícios.

Na verdade, o que muitos ainda não entenderam é que, Jesus propôs e fez com o Pai uma aliança e NÃO celebrou um contrato (com cláusulas abusivas), o qual jamais conseguiríamos cumprir.

Um bom exemplo está relatado na parábola do filho pródigo (Evangelho de Lucas, cap.15), a qual nos ensina que o amor de Deus por nós não está baseado nem em deméritos e nem em méritos . O advento de Jesus e seus ensinamentos contrariou e bateu de frente com a religiosidade do “toma lá, dá cá”.

2. PARA DESTRUIR AS OBRAS DO MAL, NÃO O LIVRE-ARBÍTRIO DO HOMEM

Em sua 1ª carta, João, o apóstolo, deixa isso bem claro: Que Deus (na forma humana) veio a este mundo para nos mostrar não somente a possibilidade, mas como fazer para não sermos contaminados pelo mal existente nesse mundo (I João 3:7,8).

Porém, nesse momento surge um dos maiores dilemas: Se Jesus veio para destruir as obras do mal, como explicar que verdadeiras aberrações e atrocidades continuam ocorrendo ainda nosso meio? E o pior, parece que há uma ampla vantagem nesse jogo desigual entre o bem x mal.

A explicação esteja, talvez, no fato que há muita coisa que o diabo (ou como você o queira chamar) não tem nada a ver com a situação.

Se há uma coisa que Deus deu ao homem e jamais tirou dele é o livre-arbítrio (o homem é livre para escolher seus caminhos, tomar suas decisões). A única liberdade que o homem não tem é a colheita daquilo que ele mesmo plantou. O advento de Jesus não veio para destruir o livre-arbítrio do homem.

Tanto isso é verdade que, naquela noite em que ocorreria o Natal de Jesus, muitos escolheram fechar a porta na cara de Maria e José.

3. PARA SALVAR PECADORES, NÃO FORMAR UMA ELITE ESPIRITUAL

Eu gosto da forma que o apóstolo Paulo escolheu para nos definir: pecadores! Escrevendo ao seu discípulo Timóteo ele diz: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior” (I Tm. 1:15).

Observe: Para quem a salvação está destinada? Para quem Jesus veio?

Jesus Cristo veio para salvar toda classe de pecadores . Se você se enquadra dentro da descrição geral de “pecador“, não importa que forma seu pecado tenha tomado . Todos os homens sem exceção pecaram, mas nem todos pecaram da mesma maneira . Todos se desviaram do caminho e, contudo, cada um foi por um caminho diferente.

Cristo Jesus veio ao mundo para salvar tanto a pecadores “respeitáveis” como a pecadores “vergonhosos”. Veio ao mundo para salvar tanto a pecadores orgulhosos, como a pecadores desesperados. Veio ao mundo para salvar os bêbados, os ladrões, os mentirosos, os que frequentam os prostíbulos, os adúlteros, os assassinos, e até mesmo aqueles travestidos de religiosos ou que estejam, neste momento, sentados em seus “tronos” inflados por um moralismo hipócrita e repugnante.

Qualquer que seja o tipo de pecado existente, esta palavra é maravilhosamente ampla e inclusiva: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores.” Eles formam um grupo sombrio, uma equipe horrível e o inferno (seja lá como você o define) é a recompensa que merecem; mas, estas são exatamente as pessoas que Jesus veio salvar.

Se houvessem pessoas no mundo livres de pecado, Jesus não teria vindo para salvá-las, já que tais pessoas não necessitariam de um Salvador. Se há alguém que se atreva a dizer que nunca pecou, então essa pessoa não precisa ler isso daqui, porque não lhe fará o menor sentido.

Apenas lembre-se: Não pode haver misericórdia para um homem que não reconhece suas próprias falhas. Se você acha que não é um pecador, aliás, que pecado nem existe, o advento de Jesus não foi para você! Isso foi algo que Jesus procurou sempre deixar muito claro: Ele veio para os doentes (não para os sãos), para os desesperados, para os marginalizados.

Aliás, me parece que Jesus tem uma certa predileção, uma espécie de disposição mais generosa com pecadores declarados, assumidos, do que com pecadores disfarçados com as máscaras da
religiosidade e do moralismo hipócrita.

Voltando a lembrar da parábola do filho pródigo, parece que ela nos prova que Deus se alegra mais com a desobediência íntegra, do que com a obediência hipócrita . A ovelha desgarrada, aquela que se desvia das demais, que se perde no caminho, recebeu uma atenção especial.

Paulo, em sua 1ª carta aos Coríntios (1:26-29) parece engrossar o coro que Jesus não veio atrás de uma elite espiritual (sábios, poderosos, nobres), mas sim, aqueles que do ponto de vista do mundo são insignificantes, desprezados, aqueles que nada são, para reduzir a nada os que pensam ser alguma coisa.

Talvez uma das maiores razões para celebrarmos o Natal neste ano seja essa: Que Cristo nasceu, veio a este mundo para salvar os pecadores, entre os quais, eu sou o pior!

Foto: Divulgação

 

José Márcio Mantello é advogado criminalista na comarca de Araçatuba e Teólogo

Graduado em Direito pela UNITOLEDO; Pós-Graduação em Docência do Ensino Técnico e Superior pela UNITOLEDO; Pós-Graduação em Prática Penal Avançada pelo DAMÁSIO EDUCACIONAL; Especialização em Execução Penal pelo IDPB – Rio de Janeiro

Atuação no Tribunal do Júri

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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