As enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul nas últimas semanas escancaram uma realidade que nos leva a pensar sobre a nossa condição humana e a nossa solidariedade como respostas às tragédias naturais. No âmago desses eventos devastadores, que nos apequenam frente a draconiana potência da natureza, emergem, dentre outros pensamentos, desilusões e aflições, reflexões profundas acerca da nossa relação com o Cosmos e com o outro.
Em relação ao cuidado como o próximo, Aristóteles (384-322 a.C.), por exemplo, em "Ética a Nicômaco" , propõe ponderações sobre a virtude da solidariedade. Para o filósofo grego, a amizade e a cooperação são fundamentais para a realização plena do ser humano. Nesse contexto, a caridade manifesta-se como uma expressão máxima dessa virtude, conectando-nos uns aos outros em momentos de adversidades, como ocorrem nos territórios do sul brasileiro. Na esteira do pensamento aristotélico, o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) discorre sobre a natureza humana no magnânimo livro "Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens" . Para Rousseau, a sociedade civil pode corromper o indivíduo, mas a solidariedade natural entre os seres humanos permanece como uma força que pode ser reavivada em tempos de crise e desesperança. Uma abordagem mais profunda sobre a relação entre o ser humano e a natureza é uma das temáticas de "Ser e Tempo" , icônica obra do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976). Ao nos convidar a repensar sobre nossa conexão com o mundo natural, Heidegger argumenta que o ser humano é parte integrante do Cosmos e que sua existência autêntica só é possível quando reconhece e respeita essa condição.
Diante das intempéries climáticas no estado das famosas vinícolas, a comoção nacional despertou um sentimento de solidariedade que transcende fronteiras geográficas, temporais, sociais, culturais e ideológicas. É como se, à vista das atrocidades avassaladoras vistas mundo afora, fôssemos afrontados com nossa própria humanidade e com a necessidade de nos unirmos em benefício do bem comum, pois, de alguma forma, somos todos iguais diante do Cosmos. Em última análise, as destruições na federação sulista nos rementem à fragilidade humana em face do implacável domínio dos elementos naturais, mas também da potência da colaboração que reside em nosso íntimo, pronta para se manifestar quando mais necessária.
O infortúnio das cheias no cenário gaúcho evoca também os ensinamentos do existencialismo, sobretudo, por meio das lentes de pensadores como Jean-Paul Sartre (1905-1980). De acordo com o filósofo francês, a liberdade humana é uma característica intrínseca nossa e, portanto, somos responsáveis não apenas por nossos feitos individuais, mas também pelas consequências coletivas dessas ações, boas ou ruins. Assim, em decorrência do dilúvio que dizimou boa parte das regiões gaúchas, somos confrontados com a responsabilidade coletiva de responder a esses eventos catastróficos, reconhecendo que nossas escolhas individuais contribuem tanto para o bem-estar da coletividade, como para o sofrimento da comunidade como um todo. Por outro lado, os hediondos alagamentos, que perduram semanas e deixaram centenas de mortos e desabrigados, não apenas evidenciam uma calamidade natural, mas também revelam a profunda vulnerabilidade da existência humana perante os devastadores poderes da natureza. Contudo, é precisamente nesses momentos de baque de desalento que a solidariedade humana pode emergir como uma resposta significativa em meio a tantas devastações, ao desafiar a indiferença, o orgulho, a vaidade e a resignação de alguns, diante desses contratempos de causas naturais que nos colocam todos no mesmo patamar, por intermédio do viço do coletivo e do esperançar.
Afora essas lucubrações, o revés do Rio Grande do Sul ressoa com as preocupações ecofilosóficas contemporâneas, que destacam a interdependência entre os seres humanos e o meio ambiente. Arne Naess (1912-2009), filósofo e ecologista norueguês, e Vandana Shiva, filósofa e ativista ambiental indiana, argumentam que a saúde e a sobrevivência da humanidade estão intrinsecamente ligadas ao vigor e ao equilíbrio dos ecossistemas naturais. Por conseguinte, mais um vez, as máculas que persistem há dias no solo do chimarrão são um lembrete doloroso das implicações do desequilíbrio ecológico causado pela ação humana, especialmente, no contexto do aquecimento global e das mudanças climáticas. Há profecias de que outros piores flagelos se desenham num horizonte não tão distante.
Em suma, as agruras da região rio-grandense-do-sul não apenas nos acareiam com questões existenciais e éticas profundas, mas também nos desafiam a agir em consonância com princípios existenciais e ambientais, principalmente, no que diz respeito ao bem querer do outro e da Terra. Essas inundações oportunizam a reflexão sobre a inexorável interconexão de todas as formas de vida no Cosmos. Ademais, também nos oferecem oportunidades de demonstrar a pujança da solidariedade coletiva e a possibilidade de transcender as infames segregações étnicas, etárias, sociais, culturais, sexuais e ideológicas que criamos no imaginário das nossas cabecinhas egoístas a troco de nada, pois, como testemunhamos, a fúria das águas torrenciais sulistas arrastaram todos e tudo que estavam no caminho, independentemente de condição social, etnia, idade e gênero. Apreende-se, assim, que na fila do pão do Cosmos somos todos absolutamente iguais, ou seja, estamos à mercê de algo muito superior ao nosso individualista cercadinho medíocre e raso.
Destarte, o nosso sentimento de insignificância e impotência frente a grandeza do universo nos compele a refletir sobre as nossas prioridades, ações e atitudes, além do nosso lugar no Cosmos e, principalmente, acerca de nossas relações com os outros. A duras penas, podemos nos libertar das amarras do egoísmo, da indiferença e da intolerância de modo a compreender que não somos o centro da existência planetária, mas sim uma parte integrante minúscula. Tão ínfima quanto um grão de areia, quase invisível e imperceptível, constituinte de uma imensidão cósmica muito maior. Poderosa o suficiente para alterar a nossa já efêmera passagem por essas bandas de cá por meio de um singelo e célere sopro.
