Opinião

Rock in Rio e a velha discussão

“Mas por que fulano vai tocar no Rock in Rio se não toca rock?”

Eduardo Martinez* - Hojemais Araçatuba
29/10/19 às 11h30

Em outubro tivemos a oitava edição do Rock In Rio no Brasil. E 34 anos depois da criação do festival, ainda podemos ouvir a famigerada pergunta: “mas por que fulano vai tocar no Rock in Rio se não toca rock?”

Em primeiro lugar, é importante lembrar que o Rock In Rio é um evento comercial, que cobra ingressos e visa lucro, não é um edital do Ministério da Cultura. Você pode procurar que não vai achar um estatuto dizendo: “O festival se compromete a levar aos seus palcos apenas roqueirões cabeludos e de roupas pretas fazendo chifrinhos com a mão”.

Outro ponto importante é que, desde a primeira edição, o evento não conta exclusivamente com artistas de rock. Nas duas primeiras mesmo (1985 e 1991) estavam lá: Elba Ramalho, Jimmy Cliff, New Kids On The Block, Dee-Lite etc.

Todo Rock In Rio é a mesma coisa: “O que a Ivete Sangalo tá fazendo aí pipipi popopó...”. A lógica do line up do Rock In Rio, em linhas gerais, usando os artistas desse ano pra ilustrar, é baseada em medalhões que atraem público fiel (Iron Maiden, Bon Jovi), artistas um pouco mais novos que estejam no mainstream (Drake, Pink) e artistas de gêneros específicos para os dias segmentados (Black Eyed Peas, Sepultura).

Ou seja, com exceção dos medalhões, se tem menos bandas de rock na programação do festival, é porque tem menos bandas de rock no mainstream. Agora, amigo, se você realmente acha que o rock’n roll está com grande destaque no mainstream, a gente precisa conversar muito sério, mas isso é papo pra outro texto.

É curioso que o rock’n roll, um estilo que tem todo um histórico de liberdade e subversão, em se tratando de fãs do gênero, tenha virado muitas vezes sinônimo de intolerância musical.

Sabe aquela história do homem heterossexual que tem a orientação sexual tão frágil que não pode nem usar uma camisa cor de rosa porque “é coisa de gay”? É bem por aí. Então, abra a cabeça, não precisa ver o show que não quer, mas se der uma chance, pode dizer sem medo que a Iza fez um baita show. Ninguém vai te acusar de traidor do movimento ou caçar sua carteirinha de roqueiro não.

 

Eduardo Martinez é jornalista, editor de imagens e músico. Aficionado por música, entusiasta de novidades e defensor da ideia: quem fala que não se faz mais música boa no Brasil, não procurou direito.

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