Opinião

Somos autênticos?

Nesse esteio, sobreleva refletir acerca do fato de que os vieses incorporados nos modelos preconizados por líderes incontestes, ou pelos tais “influencers”, podem perpetuar a falência da autenticidade, flertando, por conseguinte, com a homogeneização do pensamento, com a reprodução da realidade, assim como, num nível macro, com o retrocesso civilizatório.

Francisco Estefogo
15/01/24 às 18h00

O dicionário americano Merriam-Webster, um dos mais renomados da atualidade, recentemente elegeu “autêntico/a” como a palavra de 2023. Em tempos de inteligência artificial e, sobretudo, das redes sociais, alimentadas, principalmente, pela efemeridade vazia dos chamados “influencers”, a escolha é possivelmente decorrente da busca pela verdade e legitimidade que ultimamente o mundo, por estar se estruturando numa mononarrativa, carece profundamente. Num ano mercurial, de extremas mudanças, colapsos, sangria e desafios, a autenticidade traz à baila o valor inestimável da integridade e da sinceridade às voltas com a vastidão e a dinamicidade da linguagem que forja a nossa compreensão e atuação no nosso meio social. Nesse esteio, sobreleva refletir acerca do fato de que os vieses incorporados nos modelos preconizados por líderes incontestes, ou pelos tais “influencers”, podem perpetuar a falência da autenticidade, flertando, por conseguinte, com a homogeneização do pensamento, com a reprodução da realidade, assim como, num nível macro, com o retrocesso civilizatório.

A essa possível cacofonia do cenário moderno, que sempre se repete e, consequentemente, catalisa a mesmice antropomórfica e, em virtude disso, dificulta criação do novo, o que nos torna medíocres seguidores de triviais protocolos, Heidegger (1889-1976), um dos filósofos mais originais e importantes do século XX, referia-se como “gerede” , ou seja, nos termos atuais, um blablablá sem fim. Na contramão dos hodiernos odes às pessoas “influentes”, em especial, aos messiânicos ídolos mandatários, ou ainda, aos “gênios” detentores do conhecimento, o pensador alemão entende que existimos dentro da constante dimensão de mudanças, pois, a rigor, estamos imersos num fluxo incontrolável de práticas e movimentos, em particular, nos dias de hoje, com o advento da expansão e banalização das tecnologias digitais. Dessa forma, se a humanidade segue uma mera sucessão de retransmissão de acontecimentos, bem como de formas de ser, agir e pensar, a vida autêntica cai por terra e, destarte, tornamo-nos reles objetos inteiramente manipulados, comprometendo a nossa felicidade, a nossa ímpar existência transgressora e, à primeira vista, a atividade humana revolucionária.

Por outro lado, é preciso imergir em contextos, especialmente escolares, que fomentem a criatividade, a produção original, a perspectiva crítica, a construção de saberes, tal como de novas realidades e histórias e, portanto, “o adiamento o fim do mundo” , como vaticina Ailton Krenak, filósofo, poeta, escritor brasileiro e Imortal da Academia Brasileira de Letras, uma vez que somos constituídos como indivíduos na e pela interação com toda a dimensão dos nossos arredores e, particularmente, com os outros. Nesse processo, a linguagem ganha profundo destaque, já que é a concretude que atravessa todo o tecido social.

Por esse ângulo, o filósofo russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) concebe o termo polifonia, a saber, a representação da pluralidade de vozes presentes nos nossos enunciados, que são sempre inconclusos. Nessa dinâmica, embora estejamos entranhados em meio a inúmeros e multidiversos discursos, a autocompreensão é absolutamente central para que possamos promover o bem-estar pessoal e do outro, afugentando, desse jeito, um modo de vida já definido e sendo apenas o que é esperado de nós pela sociedade. Para tanto, a considerar a nossa essência humana terminantemente mutante e livre, poderemos buscar ampliar novas possibilidades de ser, pensar e viver, sem precedentes, nas quais “o casulo humano implode, abrindo-se para outras visões da vida não limitada”, segundo Krenak. À vista disso, sermos nós mesmos, afora respeitar maneiras de viver outras. Como adverte Kierkegaard (1813-1855), filósofo dinamarquês, considerado o precursor do existencialismo, “o desespero mais comum é não escolhermos ou não podermos ser nós mesmos, mas a forma mais profunda de desespero é escolhermos ser outra pessoa ao invés de nós mesmos."

Para além dos modelos reproduzidos referentes à nossa sexualidade, aos nossos gostos e preferências, às nossas posições políticas e aos nossos sonhos e ações cotidianas, derivados de uma vida inautêntica e tão-somente reprodutora, o singelo poema “Bilhete” de Mário Quintana (1906-1994), escritor tradutor e jornalista brasileiro, tem valor didático inestimável em relação ao valor de ser autêntico para compreender e vivenciar, por exemplo, o amor, de uma forma legítima e única, prescindindo receitas prontas a serem multiplicadas para nutrir e experenciar o sentimento mais genuinamente humano. Nessa poesia, o gaúcho, representante do modernismo, pede para que a sua amada não exponha o amor deles em cima dos telhados (leia-se, na ribalta das redes sociais), mas que seja vivido em sua autenticidade de reciprocidade, exclusivamente do casal, no que tange ao querer e amar. Entoa o poeta: “se tu me amas, ama-me baixinho/Não o grites de cima dos telhados/Deixa em paz os passarinhos/Deixa em paz a mim! /Se me queres, enfim, tem de ser bem devagarinho, amada, /que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...”

“ Membro titular da Academia Taubateana de Letras, Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada pela PUC-SP e professor do programada de Linguística Aplicada da UNITAU. Ademais, é pós-doutorando em Filosofia da Linguagem pela PUC-SP e pela UNIFESP”

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

Francisco Estefogo
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