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Debates políticos perdem espaço no WhatsApp e maioria evita opinar por medo de conflitos

Além disso, mais da metade das pessoas que participam desses espaços afirmam sentir medo de se posicionar sobre política, receosas do ambiente considerado agressivo.

Da Redação
15/12/25 às 09h14
(Foto: Arquivo)

O compartilhamento de notícias e opiniões políticas tem se tornado cada vez menos frequente em grupos de família, amigos e trabalho no WhatsApp. Além disso, mais da metade das pessoas que participam desses espaços afirmam sentir medo de se posicionar sobre política, receosas do ambiente considerado agressivo.

Os dados fazem parte do estudo “Os Vetores da Comunicação Política em Aplicativos de Mensagens”, divulgado nesta segunda-feira (15). O levantamento foi realizado pelo InternetLab, centro independente de pesquisa, em parceria com a Rede Conhecimento Social, ambas instituições sem fins lucrativos.

Segundo a pesquisa, 54% dos usuários do WhatsApp participam de grupos de família, 53% de grupos de amigos e 38% de grupos de trabalho. Já os grupos voltados especificamente para debate político reúnem apenas 6% dos usuários, percentual inferior ao registrado em 2020, quando esse número era de 10%.

Ao analisar o conteúdo desses grupos, os pesquisadores observaram uma queda significativa na circulação de mensagens relacionadas à política entre 2021 e 2024. Nos grupos de família, a proporção de pessoas que afirmavam ver com frequência esse tipo de conteúdo caiu de 34% para 27%. Nos grupos de amigos, a redução foi ainda maior, de 38% para 24%, enquanto nos grupos de trabalho houve queda de 16% para 11%.

Depoimentos colhidos pelo estudo reforçam esse cenário. Uma mulher de 50 anos, moradora de São Paulo, relata: “Evitamos falar sobre política. Acho que todos têm um senso autorregulador ali, e cada um tenta ter bom senso para não misturar as coisas.”

Medo de se posicionar

O levantamento também aponta um forte receio em expressar opiniões políticas. 56% dos entrevistados afirmaram ter medo de opinar porque consideram o ambiente “muito agressivo”. Esse sentimento é compartilhado por pessoas de diferentes posicionamentos ideológicos: 63% entre os que se identificam como de esquerda, 66% entre os de centro e 61% entre os de direita.

Uma entrevistada de 36 anos, de Pernambuco, resume a percepção: “Os ataques hoje estão mais acalorados. Às vezes você fala alguma coisa e o pessoal não quer debater, já quer partir para a briga.”

Como consequência, comportamentos de autocontenção se consolidaram. Cerca de 52% dizem se policiar cada vez mais sobre o que falam nos grupos, e 50% evitam discutir política em grupos de família para fugir de conflitos. Além disso, 65% afirmam evitar compartilhar mensagens que possam ferir os valores de outras pessoas.

O desconforto leva, inclusive, ao abandono de grupos: 29% dos entrevistados disseram já ter saído de grupos onde não se sentiam à vontade para expressar opiniões políticas.

Entre o silêncio e o confronto

Apesar do recuo geral, o estudo também identifica um grupo menor que segue se posicionando. 12% afirmam compartilhar informações consideradas importantes mesmo que isso cause desconforto, e 18 dizem defender suas ideias mesmo que possam parecer ofensivas.

Uma entrevistada de 26 anos, de Minas Gerais, descreve sua postura de forma direta: “Eu taco fogo no grupo. Gosto de assunto polêmico, gosto de falar, gosto de tacar lenha na fogueira.”

Entre os 44% que se dizem seguros para falar sobre política no WhatsApp, algumas estratégias são adotadas para evitar conflitos:

  • 30% usam humor para abordar o tema;
  • 34% preferem discutir política em conversas privadas;
  • 29% falam sobre o assunto apenas em grupos com pessoas de pensamento semelhante.

Amadurecimento no uso

Para a diretora do InternetLab e uma das autoras do estudo, Heloisa Massaro, os dados mostram um processo de amadurecimento no uso da plataforma. Segundo ela, o WhatsApp está profundamente integrado à vida cotidiana e, assim como no mundo presencial, as pessoas passaram a criar normas éticas próprias para lidar com a política nos grupos.

“O que vemos é que as pessoas se policiam mais e relatam um amadurecimento no uso. Ao longo do tempo, vai se desenvolvendo uma ética de grupo para falar de política nos aplicativos de mensagem”, afirma.

A pesquisa foi realizada de forma online, com 3.113 pessoas com 16 anos ou mais, entre 20 de novembro e 10 de dezembro de 2024, em todas as regiões do país. O estudo contou com apoio financeiro do WhatsApp, que, segundo o InternetLab, não teve ingerência sobre os resultados ou análises.

Agência Brasil

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