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Quando o câncer não espera a velhice chegar: os casos de tumores intestinais em jovens

Em Três Lagoas, diagnóstico tardio e confusão de sintomas preocupam médicos.

Patricia Acunha - Hojemais - Três Lagoas 
29/10/26 às 14h10
Mortes recentes de personalidades com menos de 50 anos reacendem alerta. (IA)

A morte precoce da atriz e cantora Lua Blanco, aos 39 anos, no último dia 18 de outubro de 2026, trouxe novamente à tona uma realidade médica cada vez mais frequente: o câncer de intestino (colorretal) já não é uma doença restrita à terceira idade. O impacto da perda de figuras públicas jovens, como o ator Chadwick Boseman (aos 43 anos, em 2020) e a cantora Preta Gil (aos 50 anos, em 2025), evidencia uma mudança de perfil que lota consultórios pelo Brasil. Embora nomes consagrados como Pelé (82 anos, em 2022), Roberto Dinamite (68 anos, em 2023) e Luis Gustavo (87 anos, em 2021) também tenham sido vítimas da doença, é a incidência em adultos mais jovens que acende o sinal vermelho na saúde pública.

Em Três Lagoas, essa realidade já faz parte da rotina médica. De acordo com a médica oncologista Dra. Raquel Pedro Moreira (CRM 11.347), o município acompanha a crescente preocupação nacional. "Nos últimos dois anos, atendemos em Três Lagoas cerca de 10 casos em pacientes entre 30 e 50 anos. A maior incidência continua sendo acima dos 60 anos, mas os diagnósticos em pessoas com menos de 50 anos têm chamado a atenção" , revela.

O PERIGO DO DIAGNÓSTICO TARDIO

Um dos maiores agravantes no combate à doença entre as gerações mais novas é o momento da descoberta. A médica explica que, na maioria das vezes, os jovens chegam aos consultórios com a doença em estágio avançado. O principal motivo é a banalização da própria dor: os sinais iniciais costumam ser facilmente confundidos com problemas intestinais corriqueiros, o que atrasa a investigação.

O corpo, no entanto, dá avisos que não devem ser normalizados. A especialista destaca que a presença de sangue nas fezes, alterações persistentes do hábito intestinal (como diarreia ou constipação alternadas), dor ou desconforto abdominal recorrente, sensação de evacuação incompleta, além de cansaço excessivo, anemia sem causa aparente e perda de peso inexplicada, são motivos para buscar uma unidade de saúde imediatamente, sem esperar que o problema desapareça sozinho.

O PESO DO ESTILO DE VIDA MODERNO

Se a idade já não é o único fator determinante, o que está adoecendo os mais jovens? A Dra. Raquel aponta que o estilo de vida tem um papel fundamental. Entre os principais fatores de risco observados na região estão o consumo excessivo de carne vermelha e carnes processadas (como salsicha, linguiça, bacon e presunto), aliados à baixa ingestão de fibras. O sedentarismo, o excesso de peso, o tabagismo e o consumo de álcool completam esse cenário de risco.

Além dos hábitos diários, a genética exige vigilância redobrada. Pelas diretrizes internacionais, o rastreamento deve começar aos 45 anos para a população em geral. No entanto, o histórico familiar muda essa regra. Se um parente próximo teve a doença, o exame preventivo deve ser feito 10 anos antes da idade do diagnóstico desse parente. "Por exemplo: se o familiar teve câncer do intestino aos 50 anos, a pessoa deve iniciar os exames de rastreio aos 40 anos de idade", orienta a oncologista.

A JORNADA DO PACIENTE EM TRÊS LAGOAS

 Quando há necessidade de investigação, o acesso à colonoscopia no município ocorre por caminhos distintos. Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o paciente passa por avaliação na Unidade Básica de Saúde (UBS), que faz a solicitação e o encaminhamento via sistema de regulação. O tempo de espera depende da disponibilidade de vagas e da classificação de prioridade clínica. Já na rede particular, o exame é agendado diretamente nas clínicas de endoscopia, dependendo das coberturas de convênios.

Uma vez confirmado o diagnóstico, Três Lagoas oferece parte da estrutura necessária para o tratamento. A cidade dispõe de cirurgia oncológica e quimioterapia. Contudo, os pacientes que necessitam de radioterapia ainda precisam ser encaminhados para Campo Grande.

A especialista ressalta que descobrir a doença precocemente muda drasticamente a jornada do paciente. Quando identificado no início, o tratamento tem intenção curativa — resolvido muitas vezes com cirurgias ou procedimentos endoscópicos menores. Nos estágios avançados, quando o tumor compromete estruturas próximas ou apresenta metástases no fígado ou pulmões, a abordagem se torna mais severa e complexa.

UM RECADO DIRETO

Não existe blindagem absoluta contra o câncer, mas a prevenção ativa é o melhor caminho. A adoção de um prato rico em frutas, verduras, legumes, feijão e cereais integrais, aliada à prática de exercícios físicos e à manutenção do peso adequado, forma a principal barreira de proteção.

Para quem tem entre 20 e 40 anos e ainda acredita que a doença é um problema do futuro, a médica deixa um recado categórico. "O câncer de intestino não é uma doença exclusiva de pessoas idosas. Não ignorem os sinais do próprio corpo. Não significa necessariamente que seja câncer, mas é importante descobrir a causa. Não esperem chegar à velhice para cuidar da saúde intestinal. Informação, atenção aos sintomas e procura por atendimento no momento certo podem salvar vidas".

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