Justiça

Policial Civil de Araçatuba acusado de envolvimento com hacker vira réu por divulgar informações sigilosas

Informações teriam sido utilizadas para extorquir médico e em matéria contra delegado de polícia: "A divulgação indevida dessas informações causou prejuízo institucional significativo", de acordo com o Ministério Público, e teria afetado a confiança na atuação da Polícia Civil

Lázaro Jr. - Agência Trio Notícias
11/08/26 às 09h39

A Justiça de Araçatuba (SP) acatou denúncia do Ministério Público e tornou réu pelo crime de violação de sigilo funcional, o policial civil investigado por envolvimento com o hacker Patrick César da Silva Brito, que está na Sérvia e já condenado em vários processos. Não há segredo de Justiça nesse processo.

Edson Luís Rodrigues foi denunciado por ter passado informações sigilosas, especialmente para Patrick, tanto para o cometimento de crimes, conforme a denúncia, como para a confecção de uma matéria jornalística publicada pela Revista Piauí, contra o delegado de polícia Divisionário da Deic (Divisão Especializada de Investigações Criminais) de Araçatuba, Carlos Henrique Cotait, que era chefe dele.

A reportagem acompanha a investigação relacionada ao hacker desde quando ele foi preso pela Interpol na Sérvia, em dezembro de 2022, em cumprimento a mandado de prisão preventiva expedido pela Justiça de Araçatuba, relacionado ao processo por crimes cometidos contra o ex-prefeito Dilador Borges (PSD) e a esposa dele. Patrick foi condenado a 9 anos e 3 meses nesse processo.

No início de fevereiro de 2023, quando ele ainda estava preso, a Revista Piauí publicou a matéria especial “O Hacker e o Delegado”. Ela é baseada basicamente em relatos feitos por Patrick, que acusa o delegado Cotait de cooptá-lo para hackear investigados, principalmente relacionados à "Operação Raio-X" , que foi chefiada por esse delegado.

Ligações Perigosas

Ocorre que em setembro de 2024, durante a “Operação Ligações Perigosas” , um jornalista de Araçatuba foi alvo de mandado de busca e apreensão e teve computador e celular apreendido. Essa operação foi deflagrada pela Polícia Civil de Araçatuba com o Gaeco (Grupo de Atuação Especializado de Combate ao Crime Organizado), e investigou entre outras coisas, a possível infiltração da facção criminosa PCC na política local.

Ao analisar o conteúdo desses aparelhos, a polícia descobriu que esse jornalista havia participado diretamente da produção da reportagem da Revista Piauí, apesar de ele ter sido alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Raio-X, deflagrada em setembro de 2020.

Inquéritos

Conforme já divulgado, a partir do conteúdo obtido foram instaurados três inquéritos policiais. Um deles é o que resultou na denúncia do Ministério Público Eleitoral, que foi aceita pela Justiça Eleitoral e tornou réus o próprio jornalista de Araçatuba e mais quatro pessoas. Esse processo segue tramitando.

Também foi instaurado um inquérito para investigar possível crime de obstrução relacionada à matéria publicada pela Revista Piauí, pois a polícia entendeu que ela foi utilizada por advogados de réus da Operação Raio-X, para tentar anular a investigação.

Esse inquérito também foi relatado, mas a reportagem recebeu informação que ainda não há uma decisão da Justiça a respeito da manifestação do Ministério Público, que teria sido pelo arquivamento. O processo tramita em segredo de Justiça.

Violação de sigilo

O terceiro inquérito instaurado foi justamente o que foi encaminhado à Corregedoria da Polícia Civil, para apurar possível crime de violação de sigilo do policial civil, que agora virou réu em ação penal.

Ao oferecer a denúncia contra ele, a promotoria de Justiça considerou que ficou caracterizado que houve uma articulação entre o jornalista de Araçatuba e o jornalista que assinou a matéria da Revista Piauí, com Patrick, para produzir conteúdo destinado a descredibilizar investigações policiais, especialmente a Operação Raio-X. 

Para isso, eles teriam contado com ajuda do policial civil que teria passado a eles, informações sigilosas, em clara violação dos deveres funcionais. O crime teria sido configurado por meio de um documento recuperado no notebook do jornalista de Araçatuba, no qual está anotado que determinada informação fora fornecida “em off” pelo policial.

Esse policial atuava como agente policial da Polícia Civil, desempenhando funções no GOE (Grupo de Operações Especiais) e era subordinado diretamente ao delegado Cotait, que era responsável pelo SECCOLD (Setor Especializado de Combate aos Crimes de Corrupção, Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro).

Ainda de acordo com a denúncia, aproveitando do cargo, das funções que desempenhava e da confiança que tinha dentro da unidade, ele teria fotografado telas de aparelhos apreendidos, copiado dados sigilosos e revelado informações reservadas, discutidas em reuniões internas. 

Revista

Um dos vazamentos de informação que consta na denúncia, está relacionado justamente ao conteúdo publicado pela Revista Piauí. A reportagem teria divulgado informações que só eram de conhecimento de pessoas envolvidas em procedimento interno para tentar descobrir quem teria passado informações sigilosas para Patrick.

O policial também é acusado de ter feito uma gravação clandestina de conversa funcional reservada com Cotait, quando era ouvido no procedimento para apurar a autoria do vazamento de informações sigilosas. 

De acordo com a denúncia, além do conteúdo dessa conversa ter circulado entre policiais e jornalistas por meio de mensagens no aplicativo WhatsApp, tendo sido enviada inclusive para Cotait, trecho dessa conversa foi transcrito e publicado na reportagem da Revista Piauí.

Extorsão

Outra ocasião em que teria ocorrido a violação de sigilo funcional por parte do policial, segundo a denúncia, foi quando ele teria fotografado e repassado a Patrick, imagens de telas de celulares apreendidos, contendo conversas, imagens e dados sensíveis vinculados a um médico investigado na Operação Raio-X.

Esse médico teve aparelhos eletrônicos apreendidos e eles estavam sob custódia da SECCOLD. Conforme já publicado, o hacker teria utilizado essas informações sigilosas para extorquir o médico investigado.

Favorecimento

Por fim, segundo a denúncia, o policial civil também teria divulgado para Patrick, informações internas sobre diligências policiais ainda a serem realizadas, materiais do Instituto de Criminalística e decisões internas da unidade, permitindo que o hacker se antecipasse às ações policiais e interferisse no resultado das investigações.

Ele inclusive teria alertado Patrick quando foi pedida a prisão preventiva dele, relacionada ao inquérito que investigava os crimes cometidos contra o ex-prefeito Dilador Borges, antes mesmo da publicação da mandado de prisão.

O favorecimento nesse caso teria sido comprovado por meio de diálogos recuperados pela polícia, nos quais o policial teria comentado com Patrick sobre o envio desses materiais, o confronto de impressões digitais e sobre movimentações internas da Deic.

Para o MP, divulgação de informações sigilosas afetou a confiança na atuação da Polícia Civil

Para o Ministério Público, a divulgação indevida de informações sigilosas por parte do policial civil que virou réu por violação de sigilo funcional causou prejuízo institucional significativo e produziu repercussão negativa, afetando a confiança na atuação da Polícia Civil.

A Promotoria considera que além de ter prejudicado a imagem da corporação e do delegado de polícia ao qual ele era subordinado, foram expostos métodos de trabalho da unidade, permitindo que investigados se antecipassem a diligências policiais, comprometendo o andamento de investigações e prejudicando de modo concreto a eficácia das operações em curso, especialmente as relacionadas à Operação Raio-X.

Diante disso, a Promtoria de Justiça requereu que a denúncia fosse recebida pela Justiça e que o policial civil seja processado e condenado pela violação de sigilo funcional. Ao receber a denúncia, na semana passada, a Justiça deu prazo de dez dias para que a defesa do policial civil se manifeste nos autos.

A reportagem procurou a defesa do policial civil, que informou que irá se manifestar apenas no processo, mas que irá provar a inocência do cliente.

Policial civil está afastado das funções há mais de 1 ano

O policial civil de Araçatuba que agora virou réu em processo pelo crime de violação do sigilo funcional, foi afastado das funções em maio de 2025 pelo Delegado-Geral de Polícia do Estado de São Paulo, Artur Dian.

Segundo a SSP (Secretaria de Segurança Pública) do Estado, o afastamento foi solicitado no decorrer do PAD (Processo Administrativo Disciplinar). A Pasta informou na ocasião que a medida foi requisitada pela autoridade responsável pela investigação, que tramita sob sigilo, por isso, detalhes do caso seriam preservados.

Na ocasião, a reportagem apurou que o afastamento estava relacionado à investigação do vazamento de informações sigilosas do médico investigado pela Operação Raio-X, que resultou no inquérito que investiga o crime de extorsão praticado contra esse médico.

Esse caso também foi investigado em procedimento instaurado pela Corregedoria da Polícia Civil, que indiciou o policial civil e Patrick pelos crimes. O inquérito foi encaminhado à Justiça Federal de Santos e a reportagem não tem conhecimento sobre possível denúncia contra os investigados.

Segundo a defesa do policial civil, a tramitação desse PAD que resultou no afastamento pelo Delegado-Geral de Polícia está suspenso.

Justiça

Já em maio deste ano, foi a vez da Justiça de Araçatuba determinar o afastamento do policial civil investigado, em função de outro procedimento da Corregedoria da Polícia Civil, que investiga possível caso de corrupção ativa e passiva.

O caso está sob sigilo, mas a reportagem apurou que estaria relacionado a um processo que resultou na condenação de dois réus por lavagem de dinheiro. Na ocasião do afastamento, a assessoria de imprensa da SSP confirmou que o policial investigado permanecia afastado preventivamente, como medida administrativa, no âmbito de um PAD.

E informou que suspensão cautelar determinada pela Justiça seria pelo período inicial de 90 dias. Com relação a essa outra investigação, a defesa do policial civil informou que também iria se manifestar no processo.

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