A Justiça de Araçatuba (SP) condenou o hacker Patrick César da Silva Brito a quase 15 anos de prisão em processo relacionado a ameaças que ele fez ao juiz de direito que o condenou por invasão de dispositivo e extorsão contra o ex-prefeito Dilador Borges (PSD) e a esposa dele. Essa é a terceira condenação de Patrick, que soma 31 anos e meio de prisão.
Pelos crimes cometidos contra Dilador e Deomerce Damasceno o hacker foi condenado a 9 anos e 3 meses de prisão. E em junho deste ano, dias após o nome dele ter sido incluído na Interpol, a Justiça de Araçatuba o condenou a mais 7 anos e 6 meses de prisão, pelos crimes de coação no curso do processo, ameaça, calúnia e injúria, praticados contra delegados de polícia, policiais civis e peritos criminais.
A nova sentença foi proferida no domingo, condenando o hacker a 7 anos, 9 meses e 18 dias de prisão no regime fechado, pelos crimes de coação no curso do processo e perseguição. Já pelos crimes de difamação, injúria e incitação ao crime, ele foi condenado a 7 anos de detenção em regime inicial semiaberto por incitação ao crime.
A Justiça também condenou o corretor de imóveis William Cesar Bosco a 6 anos, 9 meses e 18 dias de prisão no regime fechado por coação no curso do processo e perseguição e mais 7 meses e 10 dias de detenção, em regime inicial semiaberto por incitação ao crime. Cabe recurso contra a decisão.
Processo
Esse processo tramita em segredo de Justiça, porém, a reportagem acompanha desde o início as investigações. Conforme já divulgado, em 20 de agosto de 2025, Patrick foi condenado pelos crimes cometidos contra o ex-prefeito Dilador e contra a ex-primeira-dama.
Após publicação de matéria sobre a condenação, o hacker divulgou pelo menos três vídeos contestando a decisão, um deles, com imagens relacionadas ao juiz que julgou o processo. A reportagem teve acesso aos três vídeos e não vai informar sobre o conteúdo, considerado covarde por parte de integrantes do Judiciário e do Ministério Público, que também receberam as imagens, que foram disseminadas pelo aplicativo WhatsApp.
Imagens
Na ocasião, chamou a atenção das autoridades que apesar de estar na Sérvia desde 2021, onde ficou preso durante 1 ano, Patrick teve acesso a imagens internas do edifício onde o juiz que o condenou reside.
A Polícia Civil instaurou um inquérito para apurar o caso e identificou o corretor de imóveis como sendo a pessoa que teria passado tais imagens para a produção dos vídeos, pois ele também foi condenado em outro processo pelo mesmo juiz que condenou Patrick.
De acordo com o que foi apurado pela reportagem, a investigação apontou que para se aproximar da família do magistrado e obter informações da vida privada dele, um mês antes de ser condenado, Bosco mudou-se para um apartamento alugado no mesmo condomínio onde vítima reside.
O objetivo seria tentar influenciar no julgamento desse processo por lavagem de dinheiro. Para isso, ele passou a fazer parte do grupo do condomínio no WhatsApp e chegou a mandar mensagem para a esposa do juiz, na tentativa de que ela influenciasse o marido na hora de julgar o caso, mas ele acabou condenado na ação.
Provas
A investigação apontou ainda que, logo após os vídeos contra o juiz que condenou Patrick serem divulgados por ele, o corretor de imóveis alugou uma casa em nome da sogra dele, em um condomínio residencial, onde foi preso no dia 10 de setembro, durante operação realizada pela Polícia Civil para cumprimento a mandado de busca e apreensão.
Perícia feita nos equipamentos eletrônicos apreendidos durante as buscas apontou que Bosco entrou no sistema de monitoramento do prédio onde o juiz reside e fez cópia das imagens que foram utilizadas por Patrick no vídeo. Também teria sido comprovado que ele fez a foto do carro da esposa do juiz que foi utilizada no vídeo divulgado pelo hacker.
Confessou
Apesar de ter negado os crimes ao ser ouvido pela polícia, alegando que o celular dele teria sido hackeado por Patrick, a reportagem apurou que em juízo, o corretor confessou parcialmente a denúncia. Ele inclusive pediu desculpas ao juiz ameaçado e à família dele, declarando que teria sido “usado” por Patrick, pessoa que definiu como irresponsável e frustrada.
Em entrevista concedida a um podcast neste ano, Patrick afirmou que teria colocado uma pessoa para morar no mesmo edifício que residia o juiz que o condenou.
Condenação
Ainda de acordo com o que foi apurado pela reportagem, a sentença levou em consideração que o hacker, além de já ter uma condenação em 1ª instância na Justiça de Araçatuba, responde a outros nove processos.
Também pesou contra ele o fato de possuir personalidade extrema e especificamente voltada para a prática de ameaças contra autoridades e servidores públicos e os crimes terem sido praticados contra funcionário público, em razão das funções.
Outro agravante está relacionado às circunstâncias do crime, que foram praticados por meios digitais, facilitando a propagação das ofensas e mediante invasão de privacidade, causando impacto psicológico na vítima e em toda família dela.
Premeditado
Também pesou contra Bosco o fato de ele responder a mais de 30 processos por crime de apropriação indébita, e que ele participou e planejou os crimes, de forma premeditada, ao mudar para o mesmo condomínio da vítima para facilitar o monitoramento e deixar o local após as ameaças ao juiz serem divulgadas.
Por fim, houve o entendimento de que os crimes teriam sido motivados por vingança e retaliação contra o juiz de Direito, na tentativa de intimidá-lo por tê-lo condenado em outro processo.
Defesa
A reportagem encaminhou mensagem ao escritório de advocacia do Rio de Janeiro que representa Patrick pedindo informações sobre as providências que devem ser tomadas diante de mais uma condenação e aguarda retorno.
A reportagem ainda tenta identificar os responsáveis pela defesa de Bosco para que possa comentar sobre a decisão.
