Justiça

'É um sentimento incrível', afirma adolescente que conseguiu na Justiça mudar gênero e nome

Decisão judicial autoriza a retificação do prenome, a alteração do gênero e a substituição de agnome; menina tem 17 anos e mora em Araçatuba 

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
01/07/21 às 20h01

“É um sentimento incrível saber que não vou passar pelo constrangimento de apresentar um documento com uma foto e nome que não condizem com quem eu sou”. A fala é da adolescente de 17 anos, de Araçatuba (SP), que ganhou na Justiça o direito de alterar o gênero e o nome no documento de identidade.

A decisão, que é de abril deste ano, é assinada pelo juiz da 2ª Vara de Família e Sucessões, Sérgio Ricardo Biella. A ação judicial se refere à retificação do prenome, a alteração do gênero e a substituição do agnome Júnior pelo sobrenome da mãe.

De acordo com o advogado que representou a família da menina, Renan Salviano, de Araçatuba, a Justiça precisou ser acionada por se tratar de uma menor de idade. Normalmente, pessoas acima de 18 anos recorrem aos cartórios para a retificação do nome e gênero, segundo o provimento do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), de 2018.

Salviano destaca que esse tipo de ação é muito incomum, pois depende de apoio dos familiares. Segundo ele, muitos pais ainda não compreendem a diversidade como uma expressão da natureza humana e acabam não apoiando o filho ou a filha.

Na ação, o juiz ainda destaca que a averbação deverá constar no livro do cartorário, sem mencionar nas certidões do registro público de que as alterações decorrem de determinação judicial. Fica vedada a inclusão, mesmo que de forma sigilosa, da expressão “transexual” ou do sexo biológico.

(Foto: Victor Ribeiro/Seplag/Divulgação/ASN)

Autoestima

Agora, com o processo encerrado, a família aguarda o documento ficar pronto. “Por muitas vezes deixei de ir em médicos por ter que apresentar os documentos, mesmo tendo o direito de usar nome social, nesses lugares é horrível pedir isso. Lembro de uma vez que fui fazer um raio x e o moço chamou meu nome ‘morto’. Todos na recepção ficaram olhando e ele ainda disse: ‘Nossa, achei que tivesse chamado o nome errado’, em um tom não muito amigável”.

Além de se sentir mais segura com a decisão judicial, ela afirma que a mudança é algo necessário para a autoestima e também para acolher a comunidade trans.

Alistamento

Por conta da transição e da retificação do nome e gênero terem sido realizados antes de completar 18 anos, a araçatubense não precisará fazer o alistamento militar obrigatório e isso foi um dos pontos que a fez procurar a Justiça antes da maioria. Segundo ela, não se sentiria confortável nesse ambiente. 

História

A adolescente conta que nasceu em uma família religiosa e foi criada pela mãe e avó, não sendo tão próxima dos familiares por parte de pai. “Como fui criada dentro do cristianismo, eu sempre buscava entender o porquê de me sentir diferente do que me ensinaram e por muito tempo achei que fosse um tipo de pecado não me identificar com o gênero imposto”.

A menina conta que sempre se identificou com particularidades do universo feminino, mas que se segurava para não expressar esse lado.

Aos 14 anos, a mãe faleceu. “Foi algo que me abalou, por não ter conversado mais com ela sobre o assunto, já que estava com medo da reação dela. Depois disso, tive um estalo para ter coragem de falar com a minha vó sobre isso e, ao contrário do que imaginei, tive uma resposta bem positiva dela e do resto da minha família”.

“Depois que me assumi para minha vó, comecei a me sentir mais leve e aliviada por saber que alguém iria estar comigo durante o processo, algo que é extremamente importante. Então, a pastora da igreja que eu frequentava na época, me ofereceu ajuda para eu me entender melhor e foi assim que iniciei o acompanhamento psicológico com a Aline Sversut, que foi incrível. Só tive mais certeza de que realmente tinha encontrado o meu lugar e o que eu queria”. Porém, ela conta que mesmo assim, durante o processo, teve algumas dúvidas, que foram sobre como ela iria viver no Brasil, país que mais mata pessoas transgêneros no mundo.

Quase dois anos depois de começar o acompanhamento com a psicóloga, deu início ao tratamento com a endocrinologista Erika Rosa, para dar continuidade à transição. “Também entrei em contato com o Renan, para conversar e ver se seria possível a retificação dos documentos, mesmo sendo menor de idade e então começamos os pedidos com a Justiça e tive o resultado recentemente”.

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