Justiça

Violência contra a mulher é um problema social, afirma advogada criminalista

Aos 29 anos, Ana Rita Pereira dos Santos atua em universo predominantemente masculino

Lázaro Jr. - Hojemais Araçatuba
08/03/19 às 14h26
Ana Rita cobra conscientização da sociedade em geral para combater a violência contra a mulher (Foto: Divulgação)

Provando que a mulher pode estar onde ela decidir estar, aos 29 anos, a advogada criminalista Ana Rita Pereira dos Santos, de Birigui (SP), vem se destacando ao atuar em diversos processos na região de Araçatuba, apesar de esse ser um universo predominantemente masculino.

Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, ela concedeu entrevista ao Hojemais Araçatuba e contou um pouquinho da sua experiência, com seriedade, mas sem perder o bom humor.

Ana Rita cobra conscientização da sociedade em geral para combater a violência contra a mulher, que considera um problema social.

Leia abaixo a entrevista completa:

Como você analisa o cenário atual da violência contra a mulher?

O cenário de violência contra a mulher nos dias atuais é assustador e clama por uma conscientização mundial, por meio de ações de enfrentamento de combate direto e efetivo contra todas as formas de violência e tratamento desigual contra a mulher.

Os dados estatísticos de feminicídio são inaceitáveis, pois trata-se de um crime de gênero. Mulheres são mortas pelo simples fato de serem mulheres. A sociedade, como um todo, precisa entender que quando falamos de violência contra a mulher, estamos nos referindo a um problema social, pois a maioria dos casos ocorre no âmbito familiar e a violência é o início de um infortúnio estrutural de um país.

A sua experiência com casos de agressões contra mulheres mostra que o ciúme ainda é o principal responsável por esses crimes? Muitos homens ainda têm essa relação de posse, apesar de as mulheres hoje serem mais independentes deles?

Acredito que a violência contra a mulher é enraizada na cultura machista de nossa sociedade. É aquele poder de domínio, de superioridade que a classe masculina se estruturou no meio social. Ou seja, é um problema que surgiu na própria criação da humanidade, pois os homens sempre tiveram mais poderes de comando, de direção, de governo, de criação e consequentemente, mais posses de direitos.

Entretanto, a partir de muitas lutas, revoluções e gritos de socorro, a mulher foi criando seus próprios direitos. E o Estado, na função de manter um bem social, de certo modo, teve que criar ferramentas para concretizar essa igualdade feminina.

O Dia Internacional da Mulher, por exemplo, comemorado em 8 de março, surgiu em decorrência de um incêndio em 25 de março de 1911, na Companhia de Blusas Triangle, quando 146 trabalhadores morreram, sendo 125 mulheres e 21 homens (a maioria judeus).

A lei Maria da Penha foi criada após o Brasil ser condenado internacionalmente pela tolerância e omissão com que eram tratados os casos de violência contra a mulher. E, por fim, a alteração legislativa mais recente, que é o instituto do feminicídio, se deve ao fato de que 13 mulheres são mortas diariamente em nosso país.

O que precisa ser feito pelas mulheres, no seu ponto de vista, quando são vítimas de agressões?

Atitude e coragem para denunciar. Temos o disque de denúncia (180). As vítimas de agressões devem buscar ajuda com profissionais, como advogados, psicólogos, assistentes sociais, grupos de apoio, Delegacia da Mulher, Casa de Apoio e etc. Elas precisam ter força, enfrentar a situação e buscar um final para a violência. O que não pode é o silêncio, pois ele encoraja o agressor e, com isso, os índices de feminicidios só aumentam.

O que a levou ser advogada criminal?

Sou suspeita para falar, porque AMO a minha profissão criminal. A cada dia é um novo desafio, um novo aprendizado de vida. Um advogado criminal tem que estar preparado para os imprevistos, para as cenas mais chocantes e traumáticas e precisa saber manter o equilíbrio emocional diante de situações desesperadoras e cenários insalubres.

Também precisa estar preparado para enfrentar a longa jornada de trabalho, que às vezes é de 15 horas por dia.

(Foto: Divulgação)

Já cheguei a acompanhar três flagrantes em um período de 24 horas. Apesar disso, mantenho uma conduta de bom ânimo, respeito, prestígio e lealdade com todos que tenho contato, em especial, aos meus clientes, os quais conservo a verdade processual.

Na verdade, tenho como base as palavras do advogado criminalista Evandro Lins e Silva, que disse: “Se um pecado cometi na profissão, foram as poucas vezes em que acusei. Das defesas não me arrependo de nenhuma”. E assim, me sinto, inteiramente realizada.

Sabe-se que o perfil do advogado na área criminal é predominantemente masculino. Você já sentiu alguma diferença de tratamento por ser mulher?

Particularmente, a única diferença que percebo entre eu e meu colega de profissão é o sapato, o masculino é bem mais confortável. A mulher precisa ser elegante e o sapato alto ajuda, principalmente para mim, que tenho só 1,57 metro (sorri). E aí, tem escadas, direção, estacionamento com pedras e etc.

Mas, enfim, de fato, essa área criminal é predominantemente masculina, porém, nunca sofri qualquer tipo de discriminação pelo fato de ser mulher. Ao contrário, todos me respeitam e admiram a minha atuação e, de certa forma, aos poucos tenho conquistado meu espaço.

Como é para você, como mulher, ter que, por dever de profissão, defender homens que agridem as companheiras?

Exerço a advocacia criminal em obediência ao mandamento da Ética e Disciplina da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Assim, é um direito e dever do advogado assumir a defesa criminal, sem interferência da sua própria opinião sobre a conduta de seu cliente.

Foto: Divulgação

Ou seja, sempre digo que sou uma advogada processualista, que analisa os autos e provas processuais com o objetivo principal de que a lei seja cumprida. E como defensor, que todos possam ter um tratamento condizente com a dignidade da pessoa humana.

Nesse Dia da Mulher, que dica você daria às mulheres que sonham em seguir seu exemplo e atuar na área criminal?

Sejam ousadas, valentes, dedicadas e lutadoras. Busquem a justiça acima de tudo. Tenham ânimo e fé diante dos obstáculos, sejam fiéis ao poder e sensibilidade feminina e, por fim, quando sentir medo, coloque amor e humildade, e siga.

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