Justiça

Acompanhante muda versão e nega que juiz tenha pedido para ela assumir a direção da caminhonete

Afirma que foi intimidada ao prestar depoimento na polícia, tendo ficado sem dormir, sem comer e no mesmo ambiente com a esposa do acusado do atropelamento de Thais Bonatti

Lázaro Jr. - Agência Trio Notícias
20/07/26 às 14h40
Imagem da reconstituição do atropelamento (Foto: Lázaro Jr./Arquivo)

Carolina Silva de Almeida, 26 anos, que era passageira da caminhonete que atropelou Thais Bonatti de Andrade, 30, em julho de 2025 em Araçatuba (SP), mudou em juízo, a versão que ela havia apresentado à polícia, ao ser ouvida em audiência de instrução na última sexta-feira (17).

Ela, que também é ré por homicídio com dolo eventual qualificado pelo emprego de meio que resultou em perigo comum e recurso que dificultou a defesa da vítima, alegou que na delegacia teria sido vítima de intimidação, ficou sem dormir, sem comer, além de ter sido colocada no mesmo ambiente com a esposa do juiz aposentado Fernando Augusto Fontes Rodrigues Júnior, 62, denunciado pelo atropelamento.

Ao ser ouvida na polícia, naquele dia, Carolina declarou que o condutor da caminhonete teria pedido a ela para assumir a direção, por não estar se sentindo bem. Disse ainda, que o atropelamento teria ocorrido durante essa suposta troca de condutores, com o veículo em movimento.

Alegou ainda que o juiz não teria visto Thaís com a bicicleta, que ela o alertou e que nesse momento, ele teria segurado a direção, acelerado e vindo a atropelá-la. 

Intimidação

Durante a audiência de instrução, Carolina afirmou que o depoimento dela à polícia foi um caso à parte, pois ela teria falado o que "queriam que ela falasse". Ela declarou inclusive que antes de prestar depoimento, após passar várias horas no prédio, um policial a teria levado para tomar água e no corredor, teria falado que iriam incriminá-la.

Questionada se não leu o depoimento antes de assinar, a ré afirmou que teve que assinar, pois era o que eles queriam que ela falasse, após alguém ter lido o depoimento para ela.

Já se conheciam

Na nova versão apresentada em juízo, Carolina informou que já conhecia o juiz aposentado, mas não sabia informar há quanto tempo. Disse ainda que ele foi buscá-lo na casa dela na noite anterior ao atropelamento.

Rodrigues Júnior, também ouvido na audiência de instrução, declarou que os dois teriam se encontrado apenas na boate, naquela noite, quando ele a teria conhecido. Perguntado, ele respondeu que a relação dele com Carolina seria de paquera.

Porém, segundo a ré, os dois teriam chegado ao estabelecimento por volta das 23h do dia 23 de julho e, de acordo com ela, o juiz só teria bebido duas cervejas long necks que são servidas como cortesia, quando os clientes entram no recinto. Ela negou ter feito sexo com o réu enquanto estiveram na boate e informou ainda, nunca ter visto pessoas praticando sexo no local. 

Comissão

De acordo com ela, que disse na audiência que atuava como garota de programa na ocasião, a função que exercia era fazer companhia e conversar com os clientes, pois ganharia por comissão das bebidas vendidas. Assim, quanto mais conversasse, mais ela ganharia.

Disse ainda que acompanhou outros clientes na mesma noite e que o próprio réu estava com outras pessoas, apesar de não saber informar quantas pessoas seriam. De acordo com a ré, no camarote onde teriam ficado havia bastante bebida jogada no chão e cigarros.

Em depoimento em juízo, Rodrigues Júnior informou ter gasto R$ 24 mil naquela noite e madrugada na boate e ter saído logo após fazer o pagamento da conta, já pela manhã. A cobrança no cartão de crédito dele teria sido feita no mês seguinte.

Caroline declarou que permaneceu no estabelecimento até aquele momento, pois para receber a comissão dela, teria aguardá-lo pagar a comanda. Questionada se esse procedimento era habitual, ela declarou que não e que teria sido um dia atípico.

Só carona

Em depoimento, a ré disse que concordou em deixar a boate com o juiz, que a levaria para casa, porque notou que quando saíram do local, ele estaria muito bem. Ela afirmou que eles não falaram com ninguém antes de saírem.

Declarou também que não viu uma quase colisão da caminhonete com uma moto e que só soube que eles haviam trafegado por um trecho de uma via pela contramão, depois das publicações, afirmando que “todos fazem isso” naquele local e não sabia que era contramão.

Dor de cabeça

Porém, segundo a ré, no caminho o juiz teria parado a caminhonete e informado que estaria se sentido mal, com dor de cabeça. Em depoimento, Rodrigues Júnior disse que quando parou ao lado do setor de estoque do Supermercado Rondon, informou à passageira que estava passando mal, sentindo cólica abdominal.

Nesse momento, na versão dela, ela teria colocado a mão no rosto dele e perguntado se ele queria que ela estacionasse a caminhonete, apesar de não ter habilitação, mas ele teria recusado. Depois, teriam seguido, com ele dirigindo devagar.

A ré afirmou que em momento algum sentou no colo do juiz ou chegou a dirigir a caminhonete, tendo apenas se oferecido para estacionar, sem nunca ter saído do banco dela ou sentado no colo dele.

Disse ainda que vestia uma saia curta, que era a roupa que utilizava na noite, mas que na caminhonete, em momento algum ficou nua. Também afirmou não ter visto se o juiz estava com o zíper da calça aberto e declarou que durante o trajeto, não houve maldade, pois tratava-se de apenas uma carona.

Não viu

Sobre o atropelamento, Carolina afirmou que apenas sentiu quando a caminhonete passou sobre algo, não chegando a ver a ciclista antes do atropelamento, diferentemente do depoimento prestado à polícia.

Em seguida, após ele estacionar, os dois saíram para prestar apoio. Na versão dela, quando o juiz teria sido agredido com um tapa no rosto por uma das pessoas que pararam no local, ela foi para dentro do mercado para aguardar a chegada da polícia.

Relatou ainda que não sabe se o corpo de Thaís foi movido enquanto ela aguardava socorro, pois teria ficado em choque, e também não soube dizer em qual faixa da via a ciclista estava quando foi socorrida.

Por fim, afirmou que desde o ocorrido tem convivido com ameaças, teriam sido feitas montagens com fotos dela nua e até teve que entregar os dois filhos que possui ao pai, por medo de eles sofrerem algo. Questionada se denunciou as supostas ameaças, informou que até chegou a marcar para conversar com uma dos investigadores, mas não teria sido atendida.

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