Justiça

Médico e auxiliar se enfrentam na Justiça após desentendimento em posto de saúde em Aracanguá

Glenn Wood da Silva, que foi secretário de Saúde de Araçatuba, acusa a presidente da Câmara da cidade, que é auxiliar de enfermagem, de desacato

Agência Trio Notícias
21/07/26 às 16h27

A auxiliar de enfermagem Marli Pacheco Bezerra (PDT), a Marli do Lelo, que também ocupa a função de presidente da Câmara de Santo Antônio do Aracanguá (SP), foi denunciada pelo Ministério Público por desacato contra funcionário público no exercício das funções.

A ação tem como vítima o médico Glenn Wood da Silva, que foi secretário de municipal de Saúde de Araçatuba e atualmente presta plantão na unidade de saúde da cidade vizinha. 

Essa ação tramita na 3ª Vara Criminal de Araçatuba, mas haveria outra ação tramitando na 2ª Vara Criminal, na qual o MP já teria pedido o arquivamento. Além disso, o médico também moveu uma ação cível com pedido de indenização contra Marli, que fez o mesmo pedido contra ela, por danos morais.

Polícia

A ação que resultou na denúncia tem como base um boletim de ocorrência registrado em janeiro deste ano pelo médico, que acusa a auxiliar de enfermagem de desacato em duas ocasiões, a primeira em outubro de 2025.

Ele relatou à polícia que na ocasião ela teria entrado no consultório dele durante um plantão e apresentado “um maço” de exames em branco para serem carimbados e assinados. Na versão do médico, Marli teria afirmado que não era um pedido, mas uma ordem, por ela ser vereadora e presidente da Câmara.

Silva disse à polícia que recusou o pedido, sob argumento de que as guias eram liberadas em número reduzido pelo SUS (Sistema Único de Saúde), além de não saber qual seria a destinação das guias assinadas em branco, sob risco de uso indevido. Segundo o médico, diante da recusa, a vereadora o teria ofendido com os dizeres “velho” e “bobo”.

Mais guias

De acordo com o médico, em 20 de janeiro Mari teria entrado novamente no consultório com guias, mas desta vez preenchidas em nome de pessoas desconhecidas, que não haviam sido consultadas por ele. Tais guias estariam grampeadas com solicitações de exames e o médico recusou assiná-las.

Mais uma vez, a auxiliar de enfermagem o teria ofendido com os termos “velho”, “tonto”, “velho ridículo” e “velho patético”, ofensas que teriam sido testemunhadas por duas enfermeiras e por pacientes.

Na frente das testemunhas, o médico teria comunicado que iria processar Marli nas esferas civil e administrativa e ela teria respondido que isso não lhe traria qualquer prejuízo, por ela ser presidente da Câmara. Consta no boletim de ocorrência que o médico apresentou à polícia fotos das guias de exames preenchidas e de outra guia em branco.

Discussão profissional

A defesa de Marli havia representado pelo arquivamento do termo circunstanciado, sob argumento de que os fatos teriam ocorrido durante discussão profissional entre servidores públicos, o que afastaria o dolo.

Apesar do argumento, a Promotoria de Justiça considerou que a existência de dolo específico e eventual reciprocidade de condutas depende de provas, diante do crivo do contraditório e da ampla defesa.

A reportagem apurou que antes do oferecimento da denúncia, o Ministério Público propôs transação penal, benefício que foi recusado pela vereadora, por isso, a acusação prosseguiu. 

Ao aceitar a denúncia, a Promotoria de Justiça requereu a realização de uma audiência para propor a suspensão condicional do processo, a qual deve acontecer em agosto. Se a proposta não for aceita, será dado prosseguimento na ação criminal.

Marli afirma que episódio não tem relação com a Presidência da Câmara

A auxiliar de enfermagem Marli Pacheco Bezerra afirmou à reportagem que o desentendimento dela com o médico Glenn Wood da Silva não tem qualquer relação com o cargo dela de presidente da Câmara.

“Sou técnica de enfermagem há mais de 20 anos e o que aconteceu foi um desentendimento no meu ambiente de trabalho (Centro de Saúde), entre mim e outro funcionário público” , informa em nota. Ela acrescenta que a situação é juridicamente complexa e não se resume à denúncia por desacato, comunicando a existência de três ações judiciais em andamento entre as partes.

Suspensão

Marli deixa claro que essa ação que tramita na 3ª Vara Criminal de Araçatuba teve audiência designada para 27 de agosto, para a oferta de suspensão condicional do processo, que é um benefício em caso de infrações de menor potencial ofensivo.

De acordo com ela, na ação que tramita na 2ª Vara Criminal o próprio Ministério Público propôs o arquivamento do caso, por considerar que houve um "episódio pontual de descontrole emocional em ambiente hospitalar" e um "desentendimento entre dois funcionários no exercício de suas funções", não havendo que se falar em desacato. O acesso a esse processo é limitado às partes.

Por fim, a auxiliar de enfermagem explica que diante dessa compreensão e das ofensas sofridas, ela protocolou queixa-crime em desfavor do médico por injúria e difamação, a qual está em andamento. 

Indenização

Além disso, tramita na esfera cível um processo por danos morais com pedido de indenização movido pelo médico contra ela. Porém, Marli informa que a defesa dela apresentou na mesma açao uma reconvenção, pedindo que ele seja condenado a indenizá-la pelos danos morais que teria causado a ela. 

“Como pode ver, a situação envolve acusações mútuas em diferentes esferas da Justiça. Ainda não há nenhuma decisão final sobre quem tem razão. Tenho a consciência tranquila e confio que a verdade prevalecerá e minha inocência será comprovada” , finaliza a nota.

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